Discurso sobre o Método

Eduardo O C Chaves


I. Introdução: Discurso sobre o Método

Will e Ariel Durant, ao falar sobre as Confissões de Rousseau, no último volume de seu monumental The Story of Civilization, afirmam que "all autobiography, of course, is vanity” [1]. Talvez sim. Mas a afirmação, em sua simplicidade, e especialmente no "of course" que pretende dispensar a necessidade de justificação, esconde mais do que esclarece. Não resta dúvida de que há um componente de vaidade em toda autobiografia: ninguém se dispõe a escrever sobre si mesmo se não julgar que tem algo importante ou interessante a dizer. Mas que esse componente "vaidade" está longe de esgotar o que se pretende numa autobiografia é o que se pretende mostrar nesta introdução metodológica.

1. Dos Por Quês da Preocupação com a Memória

Por que é que, chegada uma determinada hora, alguém decide que deve colocar suas memórias em ordem, reconstruindo com elas, formal e oficialmente, o seu passado? [2]

A. Memória e Identidade Pessoal

Por que o ser humano escreve história (ou, no caso de povos mais primitivos, transmite a sua história oralmente de geração para geração)? A principal razão me parece ser que o povo que não cultiva e perpetua a sua história não tem differentia specifica, não tem identidade própria. É porque o Brasil foi descoberto pelos portugueses (e não pelos espanhóis ou pelos ingleses), foi colonizado e governado por eles (e não pelos franceses e holandeses que aqui aportaram), até que, pelas mãos do filho do Rei de Portugal, sem nenhuma luta, tornou-se uma monarquia independente (cuja Família Real existe até hoje) e, depois, se transformou em uma República, também sem nenhuma luta, é porque escravizamos nossos índios e importamos escravos africanos para cuidar de nossa lavoura, e, num dado momento, incentivamos, por um tempo, a vinda de imigrantes, italianos, alemães, árabes, japoneses, etc. --  é por causa de tudo isso que hoje temos a identidade nacional que temos. É a nossa história que explica porque conseguimos falar uma língua , porque, do índio avermelhado da Amazônia até a loirinha de olhos azuis de Santa Catarina, somos todos brasileiros.

Em nível pessoal, a preocupação com a memória está no mesmo plano: é a tentativa que o indivíduo faz de compreender a sua própria indentidade, de entender porque ele é assim, e não doutra forma. A autobiografia é, de certo modo, um acerto de contas do indivíduo consigo mesmo.

Em geral, acreditamos que, pelo menos em parte, somos o que fomos, que aquilo que hoje somos se explica, pelo menos parcialmente, pelas experiências vividas. Assim, ao recuperar (“resgatar” é o termo da moda) o que fomos, estaremos entendendo melhor quem somos.

John Locke, centenas de anos atrás, deu um tratamento filosófico exemplar à questão da identidade pessoal e afirmou, sem hesitar, que a base da identidade pessoal está na consciência de ações passadas (incluindo pensamentos, atitudes, emoções, etc.) – isto é, na memória. Se perdemos totalmente nossa memória, se temos amnésia total, deixamos de ser quem somos, perdemos nossa identidade – pelo menos num importante sentido do termo.

Nesse contexto Locke sugere um de seus váriosexperimentos mentais” (“thought experiments”). Se as memórias de um príncipe, de repente, passassem a habitar o corpo de um sapateiro, não haveria dúvida alguma, segundo Locke, de que, a partir daquele momento, o sapateiro (isto é, o corpo do sapateiro) passaria a ser o príncipe. Na verdade, o príncipe, através de suas memórias, teria passado a viver em corpo alheio. Teria havido, por assim dizer, uma “transmigração” de identidades.

Diz Locke:

“For should the soul of a prince, carrying with it the consciousness of the prince’s past life, enter and inform the body of a cobbler, as soon as [this body was] deserted by his own soul, everyone sees he would be the same person with the prince, accountable only for the prince’s action” [3].

Em outros locais, no mesmo capítulo, Locke elabora:

“For, it being the same consciousness that makes a man be himself to himself, personal identity depends on that only, whether it be annexed solely to one individual substance [corpo], or can be continued in a succession of several substances” [4].

“For the same consciousness being preserved, whether in the same or different substances [corpos], the personal identity is preserved” [5].

“(...) Personal identity consists, not in the identity of substance [corpo], but, as I have said, in the identity of consciousness (...)” [6].

“This every intelligent being, sensible of happiness and misery, must grant -- that there is something that is himself, that he is concerned for, and would have happy; that this self has existed in a continued duration more than one instant, and therefore it is possible may exist, as it has done, months and years to come, without any certain bounds to be set to its duration; and may be the same self, by the same consciousness continued on for the future. And thus, by this consciousness he finds himself to be the same self which did such and such an action some years since, by which he comes to be happy or miserable now. In all which account of self, the same numerical substance is not considered as making the same self; but the same continued consciousness, in which several substances may have been united, and again separated from it, which, whilst they continued in a vital union with that wherein this consciousness then resided, made a part of that same self” [7].

A questão é fascinante – e se presta a desenvolvimentos dramáticos. Vários romances foram escritos envolvendo o tema, e um filme recente, com Harrison Ford, mostra como um homem que perdeu a memória em virtude de um tiro realmente se torna um outro homemem muitos e essenciais aspectos [8].

É verdade que Locke não poderia ter imaginado a complexidade do problema que é desvelada pela evolução da ciência moderna, pela crença, extremamente bem fundada, de que a memória tem uma base física – no cérebro (ou, pelo menos, em grande parte no cérebro) – e pela possibilidade de que, futuramente, venha a ser possível transplantar o cérebro de uma pessoa – e, conseqüentemente, suas memórias, e, a fortiori, a sua identidade. A transmigração de identidades assim parece possível na forma de um transplante de cérebros. É verdade que, para Locke, a questão apresentava outras complexidades, que poderiam ser consideradas análogas, e que decorriam da possibilidade, por ele entretida, de que houvesse transmigração de almas (reencarnação) [9], de que na ressurreição final nós viéssemos a ter corpos diferentes (“espirituais”) daqueles que, após nossa morte, foram destruídos [10], etc.

Uma das mais fascinantes discussões do problema da relação entre memória e identidade pessoal está num livro de ficção científica, I Will Fear no Evil, de Robert Heinlein [11]. Nesse livro, cujo história se passa em algum momento no século XXI, um personagem, ancião extremamente rico, que tem o nome de Johann Sebastian Bach Smith, está sendo mantido vivo por aparelhos, pois o seu corpo está todo corroído por doenças. O seu cérebro, entretanto, está em perfeito estado e ele continua a pensar e a raciocionar com total lucidez. Um dia toma conhecimento dos experimentos que um cientista, na Austrália (safâmo-nos por pouco de ser o Brasil…) estava realizando, transplantando cérebros de chimpanzés. Resolve chamar o homem e o convence (sabemos como) a investigar a possibilidade de transplantar seu cérebro para um corpo em melhores condições. A possibilidade se transforma em realidade quando a linda Eunice, secretária do velho Bach Smith (e que apenas pintava o corpo, não usando roupas, como seria costume na época em que se passa a história), leva, durante um assalto, valente porretada na parte de trás da cabeça, que lhe esmaga parte do cérebro e certamente vai lhe trazer a morte. Suas características biológicas relevantes sendo totalmente compatíveis com as do velho, o transplante se faz. O velho e decrépito corpo é enterrado no lugar do atraente corpo de Eunice – e este, no hospital, recebe o cérebro transplantado do ancião.

Passado algum tempo, Eunice recobra a consciênciaou assim se pensa. Na realidade, a tese de Locke se confirma e quem recobra a consciência é Bach Smith. Deixando de lado a aparência física, é o velho Bach Smith quem volta a si, depois da operação: as memórias são as suas, as idéias, os valores, os objetivos, as manias, as implicâncias, tudo – e, portanto, a identidade da pessoa deve ser a de Bach Smith. O corpo de Eunice se presta apenas à “reencarnação” do ancião, é apenas o vaso que ele no momento habita. Depois de fascinantes episódios, em que o velho – vamos presumir que a identidade seja realmente a dele -- descobre, das formas mais óbvias, sua nova condição (diríamos nós hoje sua novaorientação sexual”?), ele tem de encarar a realidade e combater os seus herdeiros que estavam prontos para colocar as mãos em sua fortuna. Bach Smith entra com um processo judicial para manter controle da fortuna, buscando provar que, a despeito das aparências, o corpo que era de Eunice foi, na realidade, apropriado por Bach Smith e agora lhe pertence. (Na realidade, a tese é que, a despeito do que possa à primeira vista parecer, não foi o corpo de Eunice que recebeu o transplante de um cérebro, mas, sim, Bach Smith que recebeu o transplante de um corpo [12]). O juizquase tão velho quanto Bach Smith no momento da troca de corposera amigo do ancião. E, a despeito de seu ceticismo inicial, se deixa convencer da tese defendida pelo reclamante quando este, en privé, lhe revela fatos de sua vida que apenas Bach Smith poderia saber. Touché.

Uma batalha judicial ganha, outras se iniciam. O velho, agora com o corpo da jovem, quer se engravidar de si próprio (pois havia deixado seu esperma congelado). Mas não vou contar essa história quem quiser saber-lhe os detalhes, que leia o livro. O que vou relatar é a conjetura levantada por Heinlein no livro, quando sugere que a base física da memória não se encontra apenas no cérebro, mas, também, de forma menos intensa, mas não menos real, nos outros órgãos que compõem o sistema nervoso central. Por isso, gradativamente, as memórias de Eunice começam também a emergir – e aquele lindo corpo passa a ser habitado por duas pessoas (duas identidades diferentes), num chocante caso de dupla personalidade, porque, no livro, as duas personalidades não existem em série, e, sim, em paralelo – e, assim, se comunicam uma com a outra! Desta forma, o velho e sua linda ex-secretária, conversam um com o outro, discutem, argumentam -- da mesma forma que o faziam antes, quando habitavam corpos diferentes

Locke se preocupava muito com os aspectos “forenses” de sua tese: seria possível punir judicialmente um bêbedo que cometeu um crime do qual não se lembrasse? Não se lembrando do fato, o bêbedo poderia alegar que não foi ele quem cometeu o crime. Em defesa de sua tese, Locke apresenta dois argumentos: primeiro, poderia haver provas de que foi aquele corpo que cometeu o crime, enquanto é difícil provar que o bêbado realmente não se lembrava; segundo, o bêbado certamente poderia ser responsabilizado pelo ato de ter ficado bêbedo – que, Locke presume, é um ato de que ele deve se lembrar, pois antecedeu à sua bebedeira. Assim, segundo Locke, o crime pode lhe ser legitimamente imputado [13].

Que os leitores me perdoem a digressão, mas acho o problema fascinante. Fascinante, e pertinente ao mister a que aqui me dedico. Se a tese de Locke está correta – e, no geral, não vejo como possa não estar – somos, não o que fomos, mas o que nos lembramos ter sido!

B. Memória e Verdade

O último parágrafo levanta, porém, uma segunda questão importante. Somos, não o que realmente fomos, mas, sim, o que nos lembramos ter sido.

Todos nós sabemos que nossa memória é falha. Não nos lembramos, freqüentemente, de coisas que acabaram de acontecer. Olhamos um número na lista telefônica e, ao começar discá-lo, já não nos lembramos mais dele inteiro. Não nos lembramos onde colocamos coisas importantes. Esquecêmo-nos do aniversário e de datas importantes de pessoas que nos são caras.

Além de falha, no sentido de que não nos lembramos de coisas que de fato aconteceram, nossa memória também é pouco confiável, no sentido de que freqüentemente nos lembramos de coisas que não são o caso, ou que não foram bem assim. Tanto é que, freqüentemente, juramos que algo aconteceu assim até sermos convencidos de que estamos errados por evidência contrária [14].

Isso quer dizer dizer que tantocoisas que de fato aconteceram, das quais não nos lembramos, comocoisas de que imaginamos nos lembrar que realmente não aconteceram, ou não aconteceram do jeito que pensamos.

Esses fatos nos colocam diante de questões interessantes, em relação a autobiografias.

Primeiro, como é que eu sei que não estou me esquecendo de experiências importantes do meu passado, que, se lembradas, poderiam, de alguma forma redefinir minha identidade?

Doris Lessing, em sua autobiografia, discute o problema:

“Assim que você começa a escrever, a pergunta se interpõe, insistente: Por que motivo você se lembra disso e não daquilo? Por que se lembra mais dos detalhes de uma determinada semana, de um mês transcorrido há muitos anos, e, depois, negrume total, vazio? Como sabe que aquilo de que se lembra é mais importante do que aquilo de que não se lembra? [15]

Segundo, como é que eu sei que as coisas de que acredito me lembrar realmente ocorreram, ou ocorreram do jeito que eu me lembro? A possibilidade de que haja memórias inverídicasou porque honestamente nos lembramos mal ou errado do que aconteceu, ou porque intencionalmente falsificamos a memória, convencendo-nos a nós mesmos de que alguma coisa realmente aconteceu, ou aconteceu de um jeito, quando ela não aconteceu, ou não aconteceu daquele jeito [16] – coloca em xeque nossas lembranças. Assim, a tentativa formal e deliberada de reconstruir o passado, usando as memórias de outras pessoas ou evidências externas, é uma forma de testar a veracidade daquilo de que nos lembramos, de examinar os fundamentos de nossa identidade pessoal [17].

Doris Lessing, como mencionado, discute o problema em sua autobiografia, e se diz comprometida a dizer a verdade, a apresentar um relato verdadeiro do que foi sua vida – pelo menos tão verdadeiro quanto ela possa aquilatar.

A questão da verdade na reconstrução de nosso passado é essencial. Mas essa questão se desdobra em duas:

Primeiro, a questão da falsificação intencional do passado. Doris Lessing critica especialmente Simone de Beauvoir, que, ao escrever suas memórias, declara explicitamente não ter a mínima intenção de dizer a verdade sobre alguns episódios. Se não ia nem tentar dizer a verdade, pergunta Lessing, qual o valor do exercício? Sua autobiografia seria ficção – e, portanto, não autobiografia, apenas um romance com alguns elos de ligação com a realidade não fictiva [18].

Segundo, a questão mais difícil, a da falsificação inconsciente do passado. A psicologia e a experiência nos mostram que, com o passar do tempo vamos, insconscientemente, idealizando nosso passado: incidentes pequenos crescem de importância, porque nos projetam em uma luz mais favorável; outros incidentes, os mais desagradáveis, vão tendo sua importância reduzida, ou começam a ser visto sob outra luz; ainda outros, os traumáticos, são, às vezes, eliminados inteiramente do quadro. Isso tudo acontece, o mais das vezes, sem que tenhamos a intenção de falsificar o passado, simplesmente porque mecanismos sutis operam em nossas mentes para eliminar dissonâncias (e, até certo ponto, manter nossa saúde mental e nossa sanidade).

Quem está realmente preocupado com a verdade, há de querer descobrir, mesmo que tenhamos, como Lessing, a intenção de dizer a verdade, se esses mecanismos sutis não estão nos levando a nos enganar a nós mesmos [19].

C. Memória e Subjetividade

Uma outra complicação aparece em relação à questão da verdade. Em relação a fatos e eventos "externos", é possível conferir a fidedignidade de nossa memória, porque são coisas públicas, e podem ser presenciados por várias pessoas, cujas memórias podem ser usadas para aferir a veracidade de nossas memórias.

Muitas vezes, entretanto, o problema não está nos fatos ou eventos em si, mas, sim, na sua interpretação, na apreensão de seu significado, ou na atribuição de significado a eles -- e isso é algo subjetivo, privado, que não pode ser conferido com alguma coisa externa.

É fato sabido que Rousseau estava convencido, a partir de um determinado momento em sua vida, que era vítima de um complô por parte de seus amigos -- ou, naquele momento, ex-amigos. Para entender Rousseau, como pessoa, e as ações que tomou ou deixou de tomar, não adianta, num caso assim, procurar mostrar que as pessoas que ele acreditava conspirar contra ele não estavam, na realidade, conspirando. O problema, aqui, não é de fato, algo objetivo, mas de interpretação, algo subjetivo. Pode-se, naturalmente, tentar questionar que Rousseau realmente se acreditasse perseguido, especulando que ele dissesse isso apenas para justificar certos comportamentos seus. Mas o que estaria em discussão aqui seria algo subjetivo, que não pode ser cotejado com alguma evidência externa para determinar sua veracidade. Estamos, aqui, dentro da psicologia -- talvez até da psicologia profunda [20].

D. Memória e Perspectiva

Mas o problema maior, relativamente à verdade, aparece quando nos damos conta de que, mesmo tendo a intenção de dizer a verdade, e mesmo nos atendo a fatos e eventos "externos", podemos não conseguir alcançar os nossos objetivos, pois, com o tempo, mudamos de perspectiva, e, assim, não vemos os fatos e os eventos à mesma luz, não os interpretamos da mesma forma, deixamos de considerar alguns fatos e eventos como importantes, que anteriormente eram, e passamos a considerar como importantes fatos e eventos aos quais outrora não havíamos dado muita importância. A diferença, aqui, em relação às questões anteriores, é que, neste caso, podemos ter perfeita consciência das mudanças de perspectiva.

Às vezes lemos um livro, ou vemos um filme, e ele não nos diz grande coisa. Lemos o mesmo livro, ou vemos o mesmo livro, anos depois, e ele nos traz importantes revelações, que, anteriormente, ficaram despercebidas, porque nós mudamos, e, assim, a perspectiva a partir da qual encaramos as coisas, até mesmo nosso passado, também se altera [21].

Diz Doris Lessing:

“Dizer a verdade ou não, e como dosá-la, é um problema menor do que o da mudança de perspectivas, porque enxergamos a vida de modo diferente em diferentes fases; é como escalar uma montanha enquanto a paisagem vai mudando a cada curva da trilha. Tivesse eu escrito este livro aos trinta, teria sido um documento bem combativo. Aos quarenta, um gemido de despero e culpa: ai, meu Deus, como é que eu pude fazer isso ou aquilo? Agora olho para aquela criança, aquela moça, aquela mulher jovem, com uma curiosidade cada vez mais distanciada. Pode notar que os velhos costumam espiar seu passado. Por quê? – eles se perguntam. Como foi que aconteceu? Tento ver os eus que fui anteriormente como alguém os veria, depois me coloco de volta dentro de um deles e, imediatamente, me vejo submersa no choque ardoroso da emoção, justificado por pensamentos e idéias que agora julgo errados” . [22]

Ao se propor lidar com suas memórias, e, assim, com o seu passado, o autor de uma autobiografia se compromete a recensear essas mudanças de perspectiva, capturar a dinâmica de sua evolução, impedir que seja julgado hoje pelo que foi ontem.

E. Memória e Curiosidade

Por fim, preocupâmo-nos com o passado também porque somos curiosos, temos vontade de saber, com detalhes, como eram nossos antepassados, como foi nossa infância, como descobrimos isso ou aquilo, como reagimos a essa ou aquela experiência -- enfim, temos curiosidade de descobrir como viemos a ser o que somos.

Sabemos que vivenciamos muitas coisas de que não temos a menor lembrança. Mas quem sabe alguém se lembra? Quem sabe deixamos algum registro em um diário ou agenda? Quem sabe haja evidência que, de alguma forma, nos ajude a reconstruir o passado?

O ser humano interessado pelo passado tem muito do historiador, que, por sua vez, tem muito do detetive. Para reconstruir um período ou mesmo um fato ou evento, é preciso coletar pequenos fragmentos de evidência aqui e ali, juntá-los com cuidado, verificar se formam um quadro coerente, etc. Não resta dúvida de que muitas vezes, nós, individualmente, como o historiador e o detetive, somos levados pela nossa insaciável curiosidade – mesmo quando o período ou o evento que se quer resconstruir não é, ou não parece ser, tão importante assim.

Em entrevista dada ao canal de televisão a cabo Globo News [23], Sonia Braga, depois de falar de seus vários amores, foi solicitada a dizer se havia alguma coisa em comum nas pessoas pelas quais ela se apaixonou. Talvez ela nunca houvesse pensado nisso -- teve de pensar ali no ar. Disse que achava que não, que se fossem todos colocados lado a lado, provavelmente não haveria nada em comum entre eles. Noutro momento, o entrevistador lhe perguntou por que ela nunca havia se casado (resposta: "talvez porque ninguém tenha me pedido").

Quando nos propomos escrever uma autobiografia, temos de ter suficientemente curiosidade para nos fazer, e, tentar responder, questões desse tipo. A questão pode não ter grande importância pública -- mas certamente é de interesse autobiográfico.

2. Dos Por Quês de uma Autobiografia

muitos que se preocupam com o passado -- mas com o passado dos outros (como é o caso dos historiadores). Quem se propõe escrever uma autobiografia está preocupado primariamente com o seu passado. Ou será que não, a despeito das primeiras aparências?

Como disse atrás, quem se propõe escrever uma autobiografia de certo modo presume que tem algo importante ou interessante a dizer, algo que merece ser dito. Quem escreve uma autobiografia tem, na realidade, de se justificar por estar gastando tempo consigo mesmo que, quem sabe, poderia ser mais bem gasto em outro empreendimento. Por que, afinal, escrever uma autobiografia?

A. Autoconhecimento

A primeira resposta a essa pergunta, que de certo modo já foi sugerida atrás, é dada por Sócrates. Não vale a pena viver uma vida não examinada, disse ele – e o processo de escrever uma autobiografia é uma forma de examinar a própria vida. Confesso que Vivi é o título que Pablo Neruda dá a sua. A linda letra que Paul Anka dá à sua famosa canção, My Way, é um projeto de autobiografia – uma busca de autoconhecimento [24].

B. Compartilhar com os Outros as Lições Aprendidas

Raramente alguém jovem escreve uma autobiografia. As razãos para isso não é preciso procurar longe.

Primeiro, o jovem não viveu ainda muito, tem pouco para contar. Os velhos, por outro lado, acumularam tantas vivências, têm a mente tão recheada de memórias, que, de vez em quanto, decidem colocá-las no papel. Segundo, porque, nos mais idosos, a memória freqüentemente lhes começa a faltar e têm receio de que, não registrando as suas lembranças, elas venham pouco a pouco se apagando de suas mentes. Terceiro, porque os velhos vêem a morte se aproximando e se sentem, às vezes, compelidos a dizer a que vieram – como o fez Darcy Ribeiro, em suas Confissões. Já muito doente, seu maior medo era o de morrer sem poder deixar registrado a que veio [25].

C. Dar aos Outros um Passado

Mas há uma outra razão, em parte parecida com a anterior.

Lembro-me de um filme em que um homem jovem, descobrindo que era doente terminal, decide gravar em vídeo sua história para o filho que sua mulher esperava [26]. Queria que o filho conhecesse o pai, pudesse ver sua face, ouvir sua voz, visitar a casa onde ele nasceu. Autobiografia multimídia. Mas o impulso é o mesmo. Deixar registrado para a posteridade o que somos – principalmente para aqueles que nos são caros, os nossos descendentes, e que não vão ter uma oportunidade de nos conhecer, ou de nos conhecer bem, ou de nos conhecer como queremos ser conhecidos...

Eu, pessoalmente, lastimo muito não ter conhecido meu avô paterno e ter conhecido mal minha avó paterna. Meu trisavô, pelo que consta, foi Governador da Província de Minas Gerais e Senador por aquele Estado. Consta que sou aparentado do ex-Governador de Minas e ex-Vice Presidente da República, Aureliano Chaves de Mendonça. Mas não há formas de eu verificar isso com facilidade. Entretanto, gostaria muito de saber se isso é verdade. Meus ancestrais, dos dois lados, segundo consta, são portugueses. De onde vieram? Em Portugal há uma cidade chamada Chaves. Teriam os meus ancestrais paternos vindo de lá? Não gostaria que meus netos e bisnetos ficassem tão no escuro em relação ao seu avô ou bisavô quanto eu estou em relação aos meus.

D. Personae

Havia um programa na TV americana em que três pessoas representavam o papel de ser Mr. X – e apenas uma delas era o verdadeiro Mr. X. Os entrevistadores podiam fazer todo tipo de pergunta aos três, e os dois falsos Mr. X podiam – na realidade deviam – mentir à vontade. O próprio Mr. X era, naturalmente, obrigado a dizer a verdade. No final o apresentador perguntava aos entrevistadores: "Who is the real Mr. X?".

Na nossa vida desempenhamos vários papéis: filho, aluno, amigo, namorado, marido, pai, professor (ou qualquer outra função profissional). Somos, ao final, a somatória desses papéis – no entanto, nenhum de nós, ao responder a uma pergunta sobre o que somos, diria que é filho, marido, ou pai (exceto as mulheres americanas que não trabalham fora que, ao serem entrevistadas em algum programa de TV, fatalmente se descrevem, ou são descritas, como "a housewife and a mother", em evidente sinal de pobreza de espírito).

Ao nos definirmos, na vida diária, geralmente damos nossa profissão ou função profissional: sou professor, ou médico, ou advogado. Ao fazermos isso, selecionamos uma persona e a privilegiamos como definidora de nós mesmos. Eu, hoje em dia, costumo responder, meio brincando, que sou avôavô do Gabriel, da Olivia, do Guilherme, da Gabriela, do Marcelo, da Madeline, do Felipe... Entretanto, sabemos que não podemos ser identificados, ainda que preferencialmente, por uma persona em detrimento de outras – somos, na realidade, a soma, ou a mesclagem, de nossos vários papéis. Outros, ainda, prefeririam acreditar que haja umsubstrato” misterioso por detrás de todas as personae que representamos, e que esse substrato seria nossoeu real” – o resto, apenas papéis. Felizmente, este não é um livro de filosofia (embora o leitor a essa altura possa achar difícil aceitar essa afirmação), e não temos necessidade de resolver a questão aqui.

O importante é que o podermos representar diferentes personae é uma forma de nos permitir viver diferentes vidas – ou viver em realidades virtuais que construímos para nós mesmos e que, não raro, se tornam mais importantes do que as "realidades reais" que deveriam estar por baixo (ou por detrás) delas.

O ator profissional vive várias personae nos filmes que faz, nas peças que representa. Eles vão encarnando um personagem atras do outro, às vezes mais de um ao mesmo tempo. Para serem reconhecidos como bons atores, têm de encarnar seu personagem de maneira convincente -- ao ponto de até mesmo ser um pouco o personagem, para lhe dar credibilidade. Será que nessa sucessão de personae que eles encarnam eles não acabam achando que tudo é persona, e que nãoum eu transcendental que é o substrato que representa esses personagens? Será que a instabilidade emocional evidenciada por vários atores não é decorrente desse mudar muito rápido de papel que a profissão lhes impõe e que pode lhes acarretar uma perda gradual da identidade própria, que fica cada vez mais mesclada com os papéis, com a identidade dos personagens? [27]

Os loucos, por outro lado, aparentemente se fascinam tanto por uma persona que, consciente ou inconscientemente, cortam o vinculo que os prende ao eu real, passando a ser, realmente, a persona.

Mas não teríamos, nós todos, um pouco de atores em nós – ou, quem sabe, até mesmo de loucos? Será que o processo de escrever uma autobiografia não nos ajudaria a resolver algumas dessas questões?

E. Realidade Virtual

Eu, pessoalmente, venho me reconhecendo com uma pessoa que vive, eminentemente, numa realidade virtual. Ela é muito mais bela, e, em muitos sentidos, muito mais real -- alem de ter a enorme vantagem de ser (pelo menos em parte) construída por mim mesmo, e, portanto, imune às interferências, geralmente não muito benvindas, das realidades reais de outras pessoas.

O que é a literatura, o que é o cinema, o que é a novela, se não realidades virtuais compartilhadas? Mas todos nós temos a nossa realidade virtual que, embora freqüentemente não traduzida em palavras e imagens compartilháveis, ajuda a dar direção à nossa vida e a fazer a nossa passagem pela realidade real da vida mais interessante (ou menos desinteressante…). Animais (irracionais), imagino, não têm realidades virtuais. Coube a nós, seres humanos, criá-las, e é essa capacidade que nos distingue das brutas feras. Apesar de eu em muitos aspectos (essenciais, diria) ser um realista epistemológico, pois acredito que a gente nunca deve tentar mascarar a realidade (real), acredito que Platão estava certo quando dizia que a realidade das idéias (realidade virtual) é, num certo sentido, mais importante do que a realidade das coisas (realidade real). Está ai o pessoal de marketing para me dar razão: a percepção é mais importante do que a coisa, a versão do que os fatos...

Não vejo incompatibilidade entre o que acabei de dizer e o meu reverenciado realismo filosófico. Ao falar em realidade virtual a gente sente a necessidade, ao mencionar a realidade não-virtual, de designá-la de "realidade real" -- mas isso parece redundante. No entanto, se é tautológico falar em realidade real seria contraditório falar em realidade virtual? Seria a realidade virtual uma espécie de da "realidade não-real"? Mas isso é impossível. Logo, per absurdum, a realidade virtual faz sentido como uma espécie da realidade real -- ou seja, dentro da realidade propriamente dita.

Quando a gente se dá conta disso, tudo fica mais claro. A literatura, por exemplo, e o cinema e as novelas que nela se baseiam, tudo isso é ficção. Um personagem de ficção, portanto, não é um personagem que realmente viveu. No entanto, uma vez criada, a ficção passa a ter a sua realidade. Na verdade, Sherlock Holmes é (em um certo sentido) mais real do que muita gente de carne e osso: ele tem uma aparência característica, uma personalidade mais ainda, e assim por diante. Tanto Conan Doyle, o autor, como Sherlock Holmes, o personagem, são reais -- mais seria evidência de loucura se achássemos que são reais no mesmo sentido… No entanto, há um sentido em que Sherlock Holmes é mais real do que Conan Doyle, que o criou, que Romeu e Julieta são mais reais do que Shakespeare. Os personagens acabaram se tornando mais conhecidos do que os seus autores, a criatura se tornou mais importante do que o criador

Venhamos agora às nossas vidas. Todos nós temos uma vida publica, que os outros podem observar. Geralmente pensamos que a pessoa real é aquela que vemos. Mas isso é porque, em relação aos outros, todos somos behavioristas. Em relação a nós mesmos, nós, se formos realmente realistas (!), vamos concluir que nossa pessoa publica o mais das vezes não passa de uma persona -- um personagem -- que nós representamos para consumo externoNós mesmos (se não nos tornarmos demasiado crédulos na nossa capacidade de representar) sabemos melhor: sabemos que nosso eu real, que nós conhecemos, é muito diferente. Em relação a nós mesmos, não precisamos ser behavioristas: temos a possibilidade de aceder diretamente aos nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos, que, não raro, não ousamos revelar a ninguém

Muita gente se assusta quando se descobre assim nu, porque se acostumou tanto a se ver pelos olhos dos outros. É preciso ter um grau enorme de coragem para se olhar no espelho da alma e se reconhecer ali, sem as máscaras que as personae usam.

A maioria de nós, se confrontados por alguém que, se referindo à nossa pessoa pública, dissesse que não somos aquilo, reagiria negando (como faz o louco), porque admitir a veracidade da acusação seria admitir a falsidade de nossa pessoa publica.

A noção de realidade virtual é muito mais antiga do que muitos pensam. Em Platão, a nossa vida aqui na terra é virtual -- é uma sombra, uma imagem. A vida real está no mundo das idéias (que hoje chamamos de virtual). E assim cheguei ao Mito da Caverna...

Li, recentemente, uma biografia de Balzac, escrita por Graham Robb, que ressalta o fato de que, para entender a vida de Balzac, é preciso ler sua obra, e, para realmente ler a sua obra, é preciso conhecer a sua vida. As duas coisas estão de tal forma interpenetradas, que, segundo o biógrafo, freqüentemente é difícil demarcar o real do virtual, diferenciar o escritor de seus personagens.

Em menor grau, algo semelhante acontece conosco. Criamos nossas realidades virtuais, as coisas que imaginamos ou desejamos ter, e, no fim, fica difícil separar o real do virtual, o vivido do que se desejou viver. É que, se nãopara, na vida real, ser (ou ter) tudo que se quer, na virtual dá -- às vezes, com muito mais satisfaçãobasta querer. (Os maiores amores platônicos provavelmente não teriam sobrevivido uma semana de vida conjugal...).

Mas o que tem tudo isso que ver com uma autobiografia?

Alguns escrevem uma autobiografia para passar a idéia de que uma de suas personae é seu eu real. Imagino que Simone de Beauvoir, ao admitir, sem o menor constrangimento, que não pretendia dizer a verdade em relação a muitos episódios de sua vida, tinha a intenção de deixar que os outros viessem a acreditar em algo falso acerca dela própria.

Outros escrevem uma autobiografia para passar a idéia de que não se indentificam com suas personae, que seu eu real é muito diferente (e mais interessante) do que suas faces públicas.

F. A Construção do Eu

Construímos nosso passado – e, Locke estando certo, nossa identidade -- a partir de fragmentos de evidência perpetuados na memória – da mesma forma que o historiador constrói o passado a partir das evidências que o passado nos legou. Por que nos lembramos tão bem de algumas coisas, não raro distantes no tempo, e, às vezes, até desimportantes, e temos tanta dificuldade para lembrar outras, às vezes recentes e até mesmo importantes? Por que traumas nos levam a perder a memória daquilo que os circundou? [E.g., o rapaz que sobreviveu ao acidente com Diana]. Por que a memória é tão seletiva? Seria porque, inconscientemente, tentamos preservar apenas aquilo que na identidade que queremos exibir ao mundo, aquilo que se harmoniza com nosso “public self”?

Seria verdade que tudo o que vimos, sentimos, pensamos está registrado na memória, mas nosso poder de recuperação é que é limitado? Seria mesmo o problema, não com o nosso "memory bank", mas com a nossa "retrieval machine"? Poderia a hipnose, por exemplo, nos dar acesso a memórias que doutra forma ficariam para sempre inacessíveis, perdidas? Existiriam outros métodos de "direct memory access", sem precisar passar pelo "operating system" que tem uma "retrieval machine" de recursos limitados? Seriam as terapias psicanalíticas e as envolvendo hipnose, para não mencionar os métodos de reprogramação neurolíngüistica, formas aceitáveis de alterar o de que nos lembramos e, assim, mudar nossa identidade e, conseqüentemente, nossa personalidade?

E se, no processo de escrever uma autobiografia, vimos a nos lembrar de coisas de que não nos lembrávamos, e a descobrir que algumas de nossas memórias eram inverídicas, estaremos nós mudando a nossa identidade no processo? Neste caso, a pessoa que terminou de escrever a autobiografia não seria a mesma que começou a escrevê-la?

Caro leitor: não se desespere. Eu sou isso . Eu sou as coisas que aprendi a fazer. Eu sou os problemas que um dia achei interessantes. Eu sou aquele que não consegue deixar de levantar essas questões que você bem pode achar idiotas.

Darcy Ribeiro, em suas Confissões, diz que, quando sua mãe estava morta, começou a cantar uma música de procissão, de que, em outras condições, nunca se lembraria de que conseguiria lembrar: "Saiu de mim uma cantiga de procissão que eu não me lembraria nunca de que me lembrasse" [28]. A construção é canhestra: parece envolver a lembrança da lembrança, a memória da memória…

Darcy Ribeiro, na obra mencionada, também conta o caso de quando reencontrou um antigo diário e, ao lê-lo, percebeu quanta coisa havia acontecido em sua vida das quais não mais se lembrava, quanta coisa havia acontecido das quais as suas memórias atuais, quando confrontadas com o que dizia o diário, estavam totalmente equivocadas [29]. Doris Lessing também observa que, ao forçar a vinda para o consciente de memórias por muito tempo ilembradas, perguntava-se se realmente havia sido tão má -- ou tão boa, ou tão ingênua -- assim [30].

As pessoas têm memórias umas das outras. Às vezes essas memórias são negativas. Um dia, entretanto, algo acontece e as pessoas começam a ver os mesmos fatos sob uma outra luz – e as memórias se alteram. A negatividade das memórias iniciais talvez tenha feito a pessoa soterrar no subconsciente algumas memórias que possuissem uma “dissonância cognitiva” com as memórias privilegiadas -- porque essas memórias colidiam com a imagem que queriam manter da outra pessoa. De repente, algo acontece, e torna-se possível abrir um canal com o passado que permita que as boas memórias fluam de novo. O passado se reconstrói. Será uma construção mais fiel do que a anterior? Serão ambas legítimas, fotografias de diferentes momentos do nosso being-in-motion?

Por que tudo tem de ser tão complicado?

A idéia de escrever minha autobiografia foi surgindo naturalmente a partir do momento em que coloquei meu site pessoal na Internet. Isso se deu em Setembro de 1995, quando completava 52 anos (Rousseau começou a preparar suas Confissões quando tinha 54 anos). Escrevi ali um primeiro esboço autobiográfico, e gradativamente fui acrescentanto material, revelando mais e mais de mim mesmo.

Em 19 de fevereiro de 1997, numa passagem escrita depois de ler alguns comentários que alguém fez sobre o meu site, afirmo:

Que bom que você gostou do meu site particular. Há momentos em que acho que, no arremedo de autobiografia, acabei me despindo demais, fazendo quase que um strip tease da alma...  Se o resultado ficou de certa forma parecido comigo, deu certo. Mas seja qual for o resultado, eu gostei de tentar capturar em palavras um monte de coisas até aqui apenas vividas. Quem sabe ainda escrevo uma autobiografia pra valer, apenas para consumo próprio e de alguns poucos amigos?”

Quando decidi escrever minha autobiografia iniciei uma busca por mim mesmo: buscava pedaços de mim mesmo perdidos por esse mundo afora. Muita gente fez parte do meu passadotodos aqueles com quem interagi. E eles podem se lembrar de incidentes de minha vida dos quais eu não mais me lembro – pedaços de mim mesmo que eu perdi. Com isso, a minha interação com o meu passado alcançou níveis de obsessão. Cartas, diários, livros, artigosnão meus, mas dos outros com os quais interagi – tudo isso passa a ser parte de uma busca interminável por pistas que podem vir a reacender uma nova trilha de memórias que me vai me permitir encontrar pedaços de mim mesmo que eu soterrei em meu inconsciente!

Assim a vida passa, a gente fica mais velho, hopefully wiser, e fica mais interessado em avaliar o que passou antes – o que fui, o que sou. Normalmente, lembro-me apenas de pequenos trechos de minha vida. Com esforço, e a ajuda de outros, vou tentar pegar uma agulha e alinhavar os pedaços soltos e fazer uma autobiografia. Por isso o meu interesse atual em reencontrar velhos amigos, reatar velhos contatos, amarrar as pontas dos fios dos velhos amores para que os tecidos não desfiem mais do que já desfiaram pelo desgaste natural do tempo.

G. Vindicação

Neste caso, vide Rousseau.

3. Memórias Compartilhadas e o Eu Público

A seção anterior busca explicar por que escrevemos autobiografias. Aqui se tenta explicar por que as publicamos. Nada nos impediria de escrever nossas autobiografias, de reencontrar os pedaços de nós mesmos – e, depois, guardar os tesouros encontrados para nós. Não, a intenção de quem escreve uma autobiografia geralmente é vê-la publicada – é compartilhar as memórias, tornar público o que era privado.

Shared memories”. Memórias não raro são compartilhadas. Rodas de amigos nostálgicos, encontros em que se comemoram x anos de formatura, associações de ex-alunos – todas essas iniciativas são tentativas de compartilhar memórias, ou de reacender memórias de experiências que um dia foram compartilhadas – e, conseqüentemente, de enriquecer a identidade das pessoas.

O queidentidade a uma amizade ou a um casamento são as memórias compartilhadas. O sucesso ou o fracasso de um relacionamento depende dessas memórias compartilhadas. Se elas são predominantemente boas, o relacionamento sobrevive. Caso contrário, desmancha-se, deixa de existir – perde a identidade. É muito mais difícil desmanchar, e, depois de desmanchado, deixar extinguir, um casamento em quefilhos, porque estes são a corporificação de memórias compartilhadas.

Nações e grupos sociais adquirem sua identidade através das memórias que seus membros compartilham. Não era à toa que o povo de Israel era instruído a repetir diariamente: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da terra do Egito”. Considerar-se parte de uma nação, de um grupo social, é assimilar como suas as memórias do grupo. O sentido do estudo da história de um povo na escola é inculcar nas crianças essas memórias de fatosmuito tempo acontecidos – e alguns, às vezes, de forma bem diferente da transmitida. A Viagem de Cabral, a Carta de Caminha, a Inconfidência Mineira, o Grito do Ipiranga, a Proclamação da Repúblicamemórias que se pretende ver compartilhadas por todos os brasileiros. Outras memórias às vezes se tenta suprimir, mas nunca por muito tempo: a Guerra de Canudos, os Quilombos dos PalmaresPara os grupos que vêem nessas memórias parte integrante de sua identidade, suprimi-las, ou mesmo negligenciá-las, não lhes dando muito importância, equivale a uma perda de identidade.

Por que é que os grupos étnicos fazem tanta questão de preservar suas memórias, sua língua, suas canções, suas roupas, senão para manter sua identidade étnica?

Os estrangeiro que, imigrando, chega a um novo país, e prontamente lhe adota a língua, os costumes, os valores, está mudando de identidade. Por isso geralmente é mal-visto pelos companheiros que retêm os traços culturais – as memórias – trazidos do país original.

Compartilhar, até aqui, envolveu basicamente assimilar, receber de outros (geralmente dos mais velhos) o que é deles. Mas compartilhar também significa dar a outrem o que até aqui é nosso. Os que se casam com uma pessoa de outra nacionalidade, cultura ou raça, em geral precisam se esforçar para compartilhar identidadesisto é, memórias.

Quando a gente compartilha com outrem uma memória importante, nosso eu se torna em parte público, damos um pedaço de nós mesmos a outrem – parte de nossa identidade passa a pertencer a outrem. Quem publica sua autobiografia compartilha com outros suas memórias, dá-se de si aos outros, mesmo que desconhecidos – mas nunca estranhos.

Alguns autores de autobiografias tentam até selecionar a quem querem se dar. Eis o que diz Darcy Ribeiro no Prefácio de suas Confissões:

“Quero muito que estas minhas Confissões comovam. (...) Meu propósito, nesta recapitulação era saber e sentir como é que cheguei a ser o que sou.  Quero também que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia; mas por aqueles poucos que viveram vidas paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nós confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não aos que não tiveram nem terão vidas de viver, nem de confessar. Menos ainda aos pródigos de palavras de fineza, cortesãos. Quero inclusive o leitor anônimo, que ainda não viveu nem deu falta. Mas tem coração que pulsa, compassado com o meu. Talvez até que me ache engraçado, se alegre e ria de mim, se tiver peito. Não me quer julgar, mas entender, conviver. Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou foi contentamento”  (pp.11-12).

Agatha Christie, em sua autobiografia, diz:

"(...) Deveria estar escrevendo um romance policial; no entanto, com aquela natural tendência do escritor para escrever o que quer que for, exceto aquilo que deveria estar escrevendo, inesperadamente senti vontade de escrever minha autobiografia. Esse anseio de escrever a propria biografia, ouço dizer, tarde ou cedo se apossa de uma pessoa. Subitamente tomou conta de mim. Pensando melhor, a palavra autobiografia é por demais pomposa. Sugere o propósito de elaborar um estudo acerca da própria vida. Implica escrever nomes, datas e lugares em cuidadosa ordem cronólogica. Porém, o que desejo mesmo é mergulhar minha mão em uma espécie de caverna misteriosa e dali extrair um punhado das mais diversas recordações. Em meu entender, a vida consiste em três partes: o absorvente e habitualmente agradável presente, que corre minuto a minuto com velocidade fatal; o futuro, obscuro e incerto, quanto ao qual podemos fazer inumeros planos interessantese, se insólitos e improváveis tanto melhor, visto que -- como nada virá a ser como esperávamos que fosse --- ao menos nos divertimos enquanto planejavamos; e a terceira parte, o passado, as recordações e as realidades que são os alicerces da vida presente e que nos surgem de repente, trazidas por um perfume, pela forma de uma colina, qualquer canção antiga, trivialidades que nos fazem de súbito murmurar 'Eu me lembro...' com um peculiar e quase inexplicável prazer. Esta é uma das compensações que a idade nos dá e, certamente, muito agradável: recordar. Infelizmente muitas vezes não desejamos recordar como também desejamos falar de nossas recordações. E isso, há que repetirmos a nós proprios, é maçante para os outros. Por que deveriam eles estar interessados, afinal, em recordações alheias, se se trata da nossa vida e não da vida deles? Por vezes, porém, quando são jovens, concedem a nossas recordações certa curiosidade histórica" [31].

4. “Memory and Hope”

O que eu quero ser – os meus objetivos são minhas memórias projetadas para o futuro, são as memórias que eu vou querer ter daqui a algum tempo. Ayrton Senna, antes das corridas, se concentrava correndo, em sua mente, a corrida que em poucos minutos iria correr na pista. Ele se via acelerando, ultrapassando adversários, ganhando a bandeirada de chegada. Era isso que o ajudava a fazer do que era, num momento, a sua imaginação, no momento seguinte, a sua memória. Eleremembered forward”.

A contrapartida de “forward remembering” é “backward hoping”. um samba, acho que interpretado pela Beth Carvalho, parece que chamado "Foi Mangueira que chegou", que diz: "Nossos barracos são castelos na nossa imaginação". Fico pensando se isso não é verdade também na nossa memória. Imaginamos castelos onde de fato existiu um barraquinho. Se, um dia, alguma coisa precipitar o reconhecimento de que foi um barraco, vamos rejeitar o fato para ficar com a memória. Este é um exemplo de “backward hoping”. Projeta-se no passado aquilo que se deseja para o futuro.

Nós somos, portanto, não apenas o que fomos, mas, também, o que queremos ser. “Memory and Hope”. Título de um livro de um dos mais importantes professores que eu tive, Dietrich Ritschl (neto do famoso teólogo Albrecht Ritschl, que viveu no século XIX). Tanto quanto eu saiba, foi ele que cunhou as expressões “forward remembering” e “backward hoping”.

Mas chega de tantas preliminares. Vamos ao propriamente dito.


NOTAS

[1] Rousseau and Revolution: A History of Civilization in France, England, and Germany from 1756, and in the Remainder of Europe from 1715, to 1789 (Simon and Schuster, New York, 1967), p. 4.

[2] Hesitei um pouco antes de optar pela palavra “reconstruindo”, porque, como se verá, também faz bastante sentido afirmar que, ao vasculhar nossas memórias, estamos na realidade “construindo” nosso passado. Reconstruímos ou construímos o nosso passado? Essa questão vai aparecer frequëntemente nas páginas que seguem.

[3] Essays Concerning Human Understanding, Livro II, Capítulo XXVII, Parágrafo 15.

[4] Op.cit., Parágrafo 10.

[5] Op.cit., Parágrafo 13.

[6] Op.cit., Parágrafo 19.

[7] Op.cit., Parágrafo 25.

[8] O nome do filme é Regarding Henry (1991). Nele Harrison Ford representa o papel de Henry Turner, que perde a memória depois de receber um tiro. A direção é de Mike Nichols e o roteiro de Jeffrey Abrams. Vide http://us.imdb.com/Details?0102768#comment.

[9] Locke, ao discutir a transmigração de almas, cuja possibilidade ele, como vimos, admite, nega que uma alma reencarnada seja a mesma pessoa da encarnação anterior, porque as memórias não se preservam (a despeito das famosas experiências de déjà vu, usadas pelos defensores da reencarnação como evidência favorável à sua tese). Cf. op.cit., Parágrafo

[10] Se a identidade pessoal depende da memória, e não de características do nosso corpo, a possibilidade (admitida por Locke) de que na ressurreição final possamos ter corpos diferentes do que os que ora possuímos não representa nenhuma objeção à tese de que no juízo final seremos nós mesmos que seremos julgados -- desde que, naturalmente, os novos corpos retenham as memórias dos velhos. Locke não tinha dúvida, como fica evidente nas passagens citadas atrás, de que a pessoa é, na realidade, o self, não o corpo que esse self possa estar num dado momento habitando. Em outras palavras: ele era um dualista, não um monista materialista. 

[11] Originalmente publicado em 1970 por G. P. Putnam's Sons. Minha cópia, comprada em Claremont, CA, em Setembro de 1973, se descreve como "first time in paperback" e foi publicada por Berkeley Publishing Company, em 1971 e reimpressa várias vezes.

[12] Karl R. Popper e John C. Eccles escreveram um livro interessantíssimo que tem como título: The Self and its Brain (Routledge & Kegan Paul, London, 1977, 1983). A escolha do título é indicativa do fato de que, para eles, nós somos nosso self – o corpo é a “casa do self”. Não deixamos de ser quem somos por termos nos mudado de casa.

[13] Em 22 de Novembro de 1997 (dia do vigésimo segundo aniversário de minha filha mais nova), escrevi a minha amiga Ana Maria Tebar. “À tarde recebi um e-mail do Deoclécio [Silveira do Amaral], meu amigo do J [Instituto “José Manuel da Conceição” escola em que, interno, fiz o Curso Clássico], com quem não conversava há uns 30 anos, desde que eu e ele vivíamos nos EUA. Ele ainda vive, no mesmo emprego que tinha naquela época, numa escola secundária: New London Senior High School. Foi bom ler a mensagem dele. Recebi também outra mensagem do Weldon Lodwick (filho do [Rev. Robert] Lodwick que tem um artigo no site [http://jmc.org.br]), e fiquei sabendo que o irmão dele, que estudou na minha classe, tem um caso severo de depressão. É o passado que sai do lugar confortável em que se encontrava e vem me rodeando. São as memórias do colecionador de memórias que o cercam e acabam por quase obcecá-lo. Por que eu me preocupo com o passado assim? Será porque a gente é o que foi? Eu sempre acreditei que a gente é o que quer vir a ser! Que é o meu futuro que me condena! O que está o passado fazendo aqui, me fustigando, me ressuscitando lembranças enterradas em mais do que sete palmos de memórias  -- como a foto da Dorothea [Machado Kerr, citada em outra mensagem]... o intróito escrito com o Jonas [Christensen, citado em outra mensagem]... o ter sido amigo secreto da Queila Faustini [citado em outra mensagem]... Por que as pessoas se lembram dessas coisas, meu Deus? Ela, Queila Faustini, com câncer, morrendo [ nos Estados Unidos] e se lembrando de que em 1962 foi minha amiga secreta [ no Instituto “José Manuel da Conceição”] e 'me enrolou', segundo disse, numa correspondência daquelas de bilhetinhos...). Por que a gente não se lembra do que comeu ontem e se lembra dessas coisas [de mais de 35 anos atrás]? Que mecanismos estranhos operam na nossa mente? A gente é o que foi. Locke dizia isso: a base da identidade pessoal é a memória. Se eu as perder, deixo de ser quem sou. Passo a ser um outro ser, com a mesma impressão digital. Será que é justo punir um nazista de 80 anos pelos crimes que cometeu quando tinha 25? Será que a memória dele não o puniu bastante? Será que ele conseguiu esquecer? Amnésia autoimposta. Self-imposed amnesia.” Algo parecido com essas considerações finais me ficou extremamente claro quando tive um problema no meu computador principal, naquele mesmo ano de 1997, quando dirigia a People, e perdi a maior parte de meu arquivo de mensagens. Fiquei desesperado, porque grande parte de minha memória auxiliar acabava de ser apagada. Era como se um pedaço de mim mesmo me houvesse sido arrancado. Felizmente, das mensagens mais importantes eu possuía cópia: as profissionais, por havê-las redigido primeiro em Microsoft Word, e as pessoais porque, no caso das realmente importantes, a Ana Maria Tebar havia preservado uma cópia, das delas e das minhas.

[14] A psicanálise tem casos impressionantes de pessoas que, tendo reprimido a memória de um acontecimento traumático, criaram, por assim dizer, uma “memória substituta”, inverídica mas menos desagradável. Voltaire, numa frase célebre, dizia que nunca tina contado nenhuma mentira, mas que havia inventado muitas verdades...

[15] Debaixo da Minha Pele: Primeiro Volume da Minha Autobiografia, até 1949 (Companhia das Letras, São Paulo, 1997; original: Under My Skin: Volume One of my Autobiography, to 1949, 1994; tradução de Beth Vieira), pp. 21-22.

[16] Um livro interessante nesse contexto é Autoengano, de ...

[17] É verdade que, em casos de repressão, nos convencemos de que algo não aconteceu, ou não aconteceu de um determinado jeito, quando realmente aconteceu, ou aconteceu de modo diverso. Se os psicólogos estão certos, a repressão não fica totalmente impune: aquilo que foi reprimido reaparece de outras formas, causando problemas psicológicos de vários tipos.

[18] Em sua Introdução à edição das Confissões de Roussau na série "Wordsworth Classics of World Literature", Derek Matravers coloca o dedo no essencial de uma autobiografia: "The Confessions is autobiography, not fiction, and as such, it purports to describe what actually happened. In the main, Rousseau's claim to veracity is supported by modern scholarly opinion. Ocasionally he has lapses of memory, and gets his dates wrong or misjudges the time he spent at some place or another. On other occasions . . . the suspicion is that the facts are deliberately bent in his favour. Overall, however, his reliability as a witness and the range of experiences on which he was able to draw give their own value to the memoirs, as Rousseau himself realised" (Rousseau, The Confessions, with an Introduction by Derek Matravers, Wordsworth Classics of World Literature, London, 1994, pp. vii-viii).

[19] Darcy Ribeiro, em parte por saber que estava no fim da vida, não se preocupou em fazer scholarship em sua autobiografia -- isso é tarefa de biógrafo, diz ele. "Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um relato espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha [a mãe], até agora, sozinho nesse mundo. Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisa. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu vier a ter algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso" (Confissões [Companhia das Letras, São Paulo, 1997], p. 11).

[20] Registre-se que tem havido grande interesse, por parte de alguns historiadores voltados para biografias, em enveredar pelos meandros da mente dos biografados. Alguns dos perfis de Richard Nixon que foram traçados depois de sua renúncia da Presidência dos Estados Unidos são verdadeiros estudos psicológicos -- o que, naturalmente, não quer dizer que sejam corretos.

[21] Na historiografia questão análoga se levanta quando se pergunta por que precisamos sempre reescrever a história, por que não é possível escrever uma história definitiva de um país ou de algum evento histórico.

[22] Op.cit., p. 21.

[23] Essa entrevista foi levada ao ar em 3 de Janeiro de 1998 -- não sei se pela primeira vez ou em reprise.

[24] "I've lived, I've laughed and cried, I had my tears, my share of losing; and now, as tears subside, I find it all so amusing! To think, I did all that, and -- may I say -- not in a shy way, oh no, oh no not me, I did it my way. Regrets, I had a few, but then again, too few too mention. I did, what I had to do, and saw it through, without exemption,

[25] Darcy Ribeiro, op.cit., p. 11: "Escrevi estas Confissões urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobrevivessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada. Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava".

[26] O nome do filme é My Life, de 1993, estrelado por Michael Keaton (e Nicole Kidman), escrito e dirigido por Bruce Joel Rubin. Vide http://us.imdb.com/Details?0107630.

[27] Segundo me consta, Fernanda Montenegro uma vez disse, numa  entrevista, que, tendo vivido tantas realidades virtuais, no palco, no cinema e na TV, na vida real ela não precisou viver mais do que uma realidade bastante rotineira, 40 anos com o mesmo homem, etc. A afirmação faz sentido. Mas, por outro lado, parece que a diversidade das realidades virtuais vividas por muitos atores parece fazer com que eles comecem a buscar, na vida real, uma diversidade que imite a da esfera virtual, casando-se, descasando-se, casando-se de novo, à la Elizabeth Taylor e Zsa Zsa Gabor. Tentam fazer com que a vida imite a arte.

[28] Op.cit., p.35.

[29] Op.cit., p.

[30] Op.cit., p.

[31] Agatha Christie,

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Página atualizada pela última vez em: 08/09/2006