Discurso sobre o
Método
Eduardo O C Chaves
Will e Ariel Durant, ao falar sobre as
Confissões de Rousseau, no último volume de seu monumental The Story of
Civilization, afirmam que "all autobiography, of course, is vanity”
[1].
Talvez sim. Mas a afirmação, em sua simplicidade, e especialmente no "of course"
que pretende dispensar a necessidade de justificação, esconde mais do que
esclarece. Não resta dúvida de que há um componente de vaidade em toda
autobiografia: ninguém se dispõe a escrever sobre si mesmo se não julgar que tem
algo importante ou interessante a dizer. Mas que esse componente "vaidade" está
longe de esgotar o que se pretende numa autobiografia é o que se pretende
mostrar nesta introdução metodológica.
Por que é que, chegada uma determinada
hora, alguém decide que deve colocar suas memórias em ordem, reconstruindo com
elas, formal e oficialmente, o seu passado?
[2]
Por que o ser humano escreve história
(ou, no caso
de povos mais
primitivos, transmite a sua história oralmente de geração
para geração)?
A principal razão
me parece ser
que o povo
que não
cultiva e perpetua a sua história não
tem differentia specifica, não tem identidade
própria. É porque
o Brasil foi descoberto pelos portugueses (e não
pelos espanhóis
ou
pelos ingleses), foi colonizado e
governado por
eles
(e não pelos
franceses e holandeses que aqui aportaram), até
que, pelas mãos
do filho do Rei
de Portugal, sem nenhuma luta, tornou-se uma monarquia
independente
(cuja Família
Real existe até
hoje) e, depois,
se transformou em uma República, também sem nenhuma luta, é porque escravizamos nossos
índios e importamos
escravos
africanos para
cuidar de nossa
lavoura, e, num
dado
momento, incentivamos, por um tempo, a vinda
de imigrantes, italianos, alemães, árabes,
japoneses, etc. -- é por causa de tudo isso que hoje temos a
identidade nacional
que temos. É a
nossa
história que
explica porque conseguimos falar uma língua só, porque, do índio avermelhado da Amazônia até
a loirinha de olhos azuis de Santa
Catarina, somos todos brasileiros.
Em
nível
pessoal, a
preocupação
com a memória
está no mesmo
plano: é a tentativa
que
o indivíduo faz de
compreender
a sua própria
indentidade, de entender
porque
ele é assim,
e não doutra forma.
A autobiografia é, de certo modo, um acerto de contas do indivíduo consigo
mesmo.
Em geral, acreditamos que,
pelo menos em parte, somos
o que fomos, que
aquilo que
hoje somos se explica,
pelo
menos
parcialmente, pelas experiências
vividas. Assim, ao recuperar (“resgatar” é o termo
da moda) o que
fomos, estaremos entendendo melhor quem somos.
John Locke, centenas de anos atrás, deu um
tratamento filosófico exemplar à questão da identidade pessoal e afirmou, sem
hesitar, que a base da identidade pessoal está na consciência de ações passadas
(incluindo pensamentos, atitudes, emoções, etc.) – isto é, na memória. Se
perdemos totalmente nossa memória, se temos amnésia total, deixamos de ser quem
somos, perdemos nossa identidade – pelo menos num importante sentido do termo.
Nesse contexto
Locke sugere um de
seus
vários “experimentos
mentais” (“thought experiments”).
Se as memórias
de um príncipe,
de repente, passassem a
habitar
o corpo de um
sapateiro, não
haveria dúvida alguma, segundo Locke, de que,
a partir daquele momento,
o sapateiro (isto
é, o corpo do
sapateiro) passaria a ser o príncipe.
Na verdade, o príncipe, através de suas memórias, teria passado a viver em corpo
alheio. Teria havido, por assim dizer, uma “transmigração” de
identidades.
Diz Locke:
“For should
the soul of a prince, carrying with it the consciousness of the prince’s past
life, enter and inform the body of a cobbler, as soon as [this body was]
deserted by his own soul, everyone sees he would be the same person with
the prince, accountable only for the prince’s action”
[3].
Em outros locais,
no mesmo capítulo,
Locke elabora:
“For, it
being the same consciousness that makes a man be himself to himself, personal
identity depends on that only, whether it be annexed solely to one individual
substance [corpo], or can be continued in a succession of several substances”
[4].
“For the same
consciousness being preserved, whether in the same or different substances [corpos],
the personal identity is preserved”
[5].
“(...)
Personal identity consists, not in the identity of substance [corpo], but, as I have said, in the identity of
consciousness (...)”
[6].
“This every
intelligent being, sensible of happiness and misery, must grant -- that there is
something that is himself, that he is concerned for, and would have happy; that
this self has existed in a continued duration more than one instant, and
therefore it is possible may exist, as it has done, months and years to come,
without any certain bounds to be set to its duration; and may be the same self,
by the same consciousness continued on for the future. And thus, by this
consciousness he finds himself to be the same self which did such and such an
action some years since, by which he comes to be happy or miserable now. In all
which account of self, the same numerical substance is not considered as
making the same self; but the same continued consciousness, in which
several substances may have been united, and again separated from it, which,
whilst they continued in a vital union with that wherein this consciousness then
resided, made a part of that same self”
[7].
A questão é
fascinante
– e se presta a desenvolvimentos dramáticos. Vários
romances já
foram escritos envolvendo o tema, e um filme recente, com Harrison Ford, mostra
como um
homem que
perdeu a memória
em
virtude de um
tiro realmente
se torna um
outro homem
– em muitos
e essenciais
aspectos
[8].
É verdade
que
Locke não poderia
ter imaginado a complexidade do problema que é
desvelada pela
evolução
da ciência
moderna,
pela crença,
extremamente bem
fundada, de que a
memória
tem uma base
física
– no cérebro (ou,
pelo menos, em grande parte no cérebro)
– e pela possibilidade de que, futuramente,
venha a ser possível
transplantar o cérebro
de uma pessoa – e,
conseqüentemente,
suas memórias,
e, a fortiori, a sua
identidade. A transmigração de identidades assim
parece possível na
forma
de um transplante
de cérebros. É verdade
que, para
Locke, a questão já
apresentava outras complexidades, que
poderiam ser consideradas análogas, e que decorriam da possibilidade,
por
ele entretida, de
que
houvesse transmigração de almas
(reencarnação)
[9],
de que na
ressurreição
final nós
viéssemos a ter corpos
diferentes (“espirituais”)
daqueles que, após
nossa morte,
foram destruídos
[10],
etc.
Uma das mais fascinantes discussões
do problema da
relação
entre memória
e identidade
pessoal
está num livro de
ficção
científica, I Will Fear no Evil,
de Robert Heinlein
[11].
Nesse livro, cujo
história se passa
em algum
momento no século
XXI, um
personagem,
ancião
extremamente
rico, que tem
o nome de Johann Sebastian Bach Smith,
está sendo mantido vivo por aparelhos, pois o seu corpo já está todo corroído por
doenças. O seu
cérebro,
entretanto, está em
perfeito
estado e ele
continua a pensar e a raciocionar com total lucidez. Um dia toma conhecimento dos experimentos
que um
cientista, na Austrália (safâmo-nos por pouco de ser o Brasil…) estava realizando, transplantando cérebros de chimpanzés.
Resolve chamar o homem
e o convence (sabemos como) a investigar a possibilidade de transplantar
seu cérebro
para um corpo em melhores condições.
A possibilidade se transforma em realidade quando a linda Eunice, secretária
do velho Bach Smith (e que apenas
pintava o corpo,
não
usando roupas,
como
seria costume na época em que se passa a história),
leva, durante
um assalto,
valente porretada na parte de trás
da cabeça, que
lhe esmaga parte
do cérebro e
certamente
vai lhe trazer
a morte. Suas
características biológicas relevantes sendo totalmente
compatíveis com
as do velho, o
transplante
se faz. O velho e
decrépito
corpo é enterrado no lugar do atraente corpo de Eunice – e este,
no hospital, recebe o cérebro
transplantado do ancião.
Passado algum tempo,
Eunice recobra a
consciência
– ou assim
se pensa. Na realidade,
a tese de Locke se confirma e quem recobra a consciência é Bach Smith. Deixando de lado a aparência
física, é o velho
Bach Smith quem
volta
a si, depois
da operação: as
memórias
são as suas,
as idéias, os
valores, os objetivos, as
manias, as implicâncias,
tudo
– e, portanto, a
identidade
da pessoa deve ser a de
Bach Smith. O corpo de Eunice se presta apenas à “reencarnação” do
ancião, é apenas o
vaso
que ele
no momento habita.
Depois
de fascinantes
episódios,
em que
o velho – vamos
presumir
que a identidade
seja realmente a dele -- descobre, das formas mais
óbvias, sua nova
condição (diríamos
nós
hoje sua
nova “orientação
sexual”?), ele
tem de encarar a realidade
e combater os seus
herdeiros que
já estavam
prontos
para colocar as mãos em sua fortuna.
Bach Smith entra com um processo judicial para manter controle da fortuna, buscando provar que, a despeito
das aparências, o
corpo
que era
de Eunice foi, na realidade,
apropriado
por Bach Smith e
agora
lhe pertence.
(Na realidade, a tese
é que, a despeito
do que possa à
primeira
vista parecer,
não foi o corpo
de Eunice que recebeu o transplante de um
cérebro, mas,
sim, Bach Smith
que
recebeu o transplante de um corpo
[12]).
O juiz – quase
tão velho
quanto Bach Smith no momento da troca
de corpos – era
amigo do ancião.
E, a despeito de
seu
ceticismo inicial,
se deixa convencer
da tese defendida pelo
reclamante quando
este, en privé,
lhe revela fatos de sua vida que apenas Bach Smith poderia
saber. Touché.
Uma batalha judicial ganha,
outras se iniciam. O velho, agora com o corpo da jovem,
quer se engravidar
de si próprio
(pois havia deixado seu
esperma congelado). Mas
não vou contar
essa história –
quem
quiser saber-lhe os detalhes, que leia o livro.
O que vou relatar
é a conjetura levantada por Heinlein no livro, quando
sugere que a base
física da memória
não se encontra
apenas no cérebro,
mas, também,
de forma menos
intensa, mas
não menos
real, nos
outros órgãos
que compõem o
sistema
nervoso central.
Por isso,
gradativamente, as
memórias
de Eunice começam também a emergir – e aquele lindo corpo passa a ser habitado por duas pessoas
(duas identidades
diferentes), num chocante
caso
de dupla
personalidade,
porque, no livro,
as duas personalidades não existem em série, e, sim, em paralelo – e,
assim, se comunicam uma com a outra!
Desta forma, o velho
e sua linda
ex-secretária, conversam um com o outro,
discutem, argumentam -- da mesma forma que o faziam antes, quando
habitavam corpos
diferentes…
Locke se preocupava muito com os aspectos
“forenses” de sua tese: seria possível punir judicialmente um bêbedo que cometeu
um crime do qual não se lembrasse? Não se lembrando do fato, o bêbedo poderia
alegar que não foi ele quem cometeu o crime. Em defesa de sua tese, Locke
apresenta dois argumentos: primeiro, poderia haver provas de que foi aquele
corpo que cometeu o crime, enquanto é difícil provar que o bêbado realmente não
se lembrava; segundo, o bêbado certamente poderia ser responsabilizado pelo ato
de ter ficado bêbedo – que, Locke presume, é um ato de que ele deve se lembrar,
pois antecedeu à sua bebedeira. Assim, segundo Locke, o crime pode lhe ser
legitimamente imputado
[13].
Que
os leitores me
perdoem a digressão, mas acho o problema
fascinante.
Fascinante, e pertinente
ao mister
a que aqui
me dedico. Se a
tese
de Locke está correta – e, no geral, não vejo
como possa não
estar – somos, não
o que fomos, mas
o que nos
lembramos ter sido!
O último parágrafo levanta, porém, uma
segunda questão importante. Somos, não o que realmente fomos, mas, sim, o que
nos lembramos ter sido.
Todos nós sabemos que nossa memória é
falha. Não nos lembramos, freqüentemente, de coisas que acabaram de acontecer.
Olhamos um número na lista telefônica e, ao começar discá-lo, já não nos
lembramos mais dele inteiro. Não nos lembramos onde colocamos coisas
importantes. Esquecêmo-nos do aniversário e de datas importantes de pessoas que
nos são caras.
Além
de falha, no sentido
de que não
nos lembramos de
coisas
que de fato
aconteceram, nossa
memória
também é pouco
confiável, no sentido de que freqüentemente
nos lembramos de
coisas
que não
são o caso,
ou que
não foram bem
assim. Tanto
é que,
freqüentemente, juramos que
algo
aconteceu assim –
até
sermos convencidos de que estamos errados por
evidência
contrária
[14].
Isso quer dizer
dizer
que tanto
há coisas que
de fato aconteceram, das quais não nos lembramos, como
há coisas de que
imaginamos nos lembrar
que realmente
não aconteceram,
ou
não aconteceram do
jeito
que pensamos.
Esses fatos nos colocam diante de questões
interessantes, em relação a autobiografias.
Primeiro, como é que eu sei que não estou
me esquecendo de experiências importantes do meu passado, que, se lembradas,
poderiam, de alguma forma redefinir minha identidade?
Doris Lessing, em sua autobiografia,
discute o problema:
“Assim que você começa a
escrever, a pergunta se interpõe, insistente: Por que motivo você se lembra
disso e não daquilo? Por que se lembra mais dos detalhes de uma determinada
semana, de um mês transcorrido há muitos anos, e, depois, negrume total, vazio?
Como sabe que aquilo de que se lembra é mais importante do que aquilo de que
não se lembra? ”
[15]
Segundo, como é que eu sei que as coisas de que
acredito me lembrar
realmente ocorreram, ou ocorreram do jeito
que eu
me lembro? A possibilidade de que haja memórias
inverídicas – ou porque honestamente
nos lembramos mal
ou errado do que
aconteceu, ou
porque
intencionalmente falsificamos a memória, convencendo-nos a nós
mesmos de que
alguma coisa realmente
aconteceu, ou aconteceu de um jeito, quando ela não aconteceu, ou
não aconteceu daquele jeito
[16]
– coloca em xeque
nossas lembranças.
Assim, a tentativa
formal
e deliberada de reconstruir o
passado, usando as memórias
de outras pessoas ou evidências externas,
é uma forma de testar a
veracidade daquilo de que nos lembramos, de examinar
os fundamentos de
nossa
identidade
pessoal
[17].
Doris Lessing, como mencionado, discute o
problema em sua autobiografia, e se diz comprometida a dizer a verdade, a
apresentar um relato verdadeiro do que foi sua vida – pelo menos tão verdadeiro
quanto ela possa aquilatar.
A questão da verdade na reconstrução de
nosso passado é essencial. Mas essa questão se desdobra em duas:
Primeiro, a questão da falsificação
intencional do passado. Doris Lessing critica especialmente Simone de Beauvoir,
que, ao escrever suas memórias, declara explicitamente não ter a mínima intenção
de dizer a verdade sobre alguns episódios. Se não ia nem tentar dizer a verdade,
pergunta Lessing, qual o valor do exercício? Sua autobiografia seria ficção – e,
portanto, não autobiografia, apenas um romance com alguns elos de ligação com a
realidade não fictiva
[18].
Segundo,
a questão mais difícil, a da falsificação
inconsciente do passado.
A psicologia e a
experiência
nos mostram que,
com o passar
do tempo vamos, insconscientemente,
idealizando nosso
passado:
incidentes
pequenos
crescem de importância, porque nos
projetam em uma
luz
mais favorável;
outros incidentes,
os mais desagradáveis, vão tendo sua importância reduzida, ou
começam a ser visto
sob outra
luz; ainda
outros, os traumáticos, são, às vezes,
eliminados inteiramente do quadro. Isso tudo acontece, o mais
das vezes, sem
que tenhamos a
intenção
de falsificar o passado,
simplesmente
porque
mecanismos sutis operam em nossas mentes
para eliminar dissonâncias (e, até
certo ponto, manter nossa saúde mental e nossa sanidade).
Quem está realmente preocupado com a
verdade, há de querer descobrir, mesmo que tenhamos, como Lessing, a intenção de
dizer a verdade, se esses mecanismos sutis não estão nos levando a nos enganar a
nós mesmos
[19].
Uma outra complicação aparece em relação à
questão da verdade. Em relação a fatos e eventos "externos", é possível conferir
a fidedignidade de nossa memória, porque são coisas públicas, e podem ser
presenciados por várias pessoas, cujas memórias podem ser usadas para aferir a
veracidade de nossas memórias.
Muitas vezes, entretanto, o problema não
está nos fatos ou eventos em si, mas, sim, na sua interpretação, na apreensão de
seu significado, ou na atribuição de significado a eles -- e isso é algo
subjetivo, privado, que não pode ser conferido com alguma coisa externa.
É fato sabido que
Rousseau estava convencido, a partir de um determinado momento
em sua
vida, que
era vítima
de um complô
por parte
de seus amigos
-- ou, naquele
momento,
já ex-amigos. Para
entender Rousseau, como
pessoa, e as ações
que tomou ou
deixou de tomar, não
adianta, num caso
assim,
procurar mostrar que as pessoas que ele
acreditava
conspirar contra
ele não
estavam, na realidade, conspirando. O problema, aqui,
não é de fato,
algo objetivo,
mas de
interpretação,
algo subjetivo.
Pode-se, naturalmente,
tentar
questionar que
Rousseau realmente se acreditasse
perseguido, especulando que ele dissesse isso
apenas para justificar certos comportamentos seus.
Mas o que
estaria em discussão
aqui seria algo
subjetivo, que
não pode ser
cotejado com alguma
evidência
externa para determinar sua
veracidade. Estamos, aqui, dentro da psicologia
-- talvez até
da psicologia
profunda
[20].
Mas
o problema maior,
relativamente à verdade,
aparece quando
nos
damos conta de que,
mesmo tendo a
intenção
de dizer a verdade, e mesmo nos
atendo a fatos e
eventos
"externos", podemos não conseguir alcançar os nossos objetivos, pois, com o tempo,
mudamos de perspectiva, e, assim, não
vemos os fatos e os
eventos
à mesma luz,
não os interpretamos da mesma forma, deixamos de considerar alguns fatos e eventos
como importantes,
que anteriormente
eram, e passamos a considerar
como
importantes fatos
e eventos aos
quais
outrora não
havíamos dado
muita
importância. A
diferença,
aqui, em
relação às
questões
anteriores, é que,
neste caso, podemos
ter
perfeita
consciência
das mudanças de perspectiva.
Às vezes lemos um livro, ou vemos um filme,
e ele não nos diz grande coisa. Lemos o mesmo livro, ou vemos o mesmo livro,
anos depois, e ele nos traz importantes revelações, que, anteriormente, ficaram
despercebidas, porque nós mudamos, e, assim, a perspectiva a partir da qual
encaramos as coisas, até mesmo nosso passado, também se altera
[21].
Diz Doris Lessing:
“Dizer a verdade ou não, e como
dosá-la, é um problema menor do que o da mudança de perspectivas, porque
enxergamos a vida de modo diferente em diferentes fases; é como escalar uma
montanha enquanto a paisagem vai mudando a cada curva da trilha. Tivesse eu
escrito este livro aos trinta, teria sido um documento bem combativo. Aos
quarenta, um gemido de despero e culpa: ai, meu Deus, como é que eu pude fazer
isso ou aquilo? Agora olho para aquela criança, aquela moça, aquela mulher
jovem, com uma curiosidade cada vez mais distanciada. Pode notar que os velhos
costumam espiar seu passado. Por quê? – eles se perguntam. Como foi
que aconteceu? Tento ver os eus que fui anteriormente como alguém os veria,
depois me coloco de volta dentro de um deles e, imediatamente, me vejo submersa
no choque ardoroso da emoção, justificado por pensamentos e idéias que agora
julgo errados” .
[22]
Ao se propor lidar com suas memórias, e,
assim, com o seu passado, o autor de uma autobiografia se compromete a recensear
essas mudanças de perspectiva, capturar a dinâmica de sua evolução, impedir que
seja julgado hoje pelo que foi ontem.
Por fim, preocupâmo-nos com o passado
também porque somos curiosos, temos vontade de saber, com detalhes, como eram
nossos antepassados, como foi nossa infância, como descobrimos isso ou aquilo,
como reagimos a essa ou aquela experiência -- enfim, temos curiosidade de
descobrir como viemos a ser o que somos.
Sabemos que vivenciamos muitas coisas de
que não temos a menor lembrança. Mas quem sabe alguém se lembra? Quem sabe
deixamos algum registro em um diário ou agenda? Quem sabe haja evidência que, de
alguma forma, nos ajude a reconstruir o passado?
O ser humano interessado pelo passado tem
muito do historiador, que, por sua vez, tem muito do detetive. Para reconstruir
um período ou mesmo um fato ou evento, é preciso coletar pequenos fragmentos de
evidência aqui e ali, juntá-los com cuidado, verificar se formam um quadro
coerente, etc. Não resta dúvida de que muitas vezes, nós, individualmente, como
o historiador e o detetive, somos levados pela nossa insaciável curiosidade –
mesmo quando o período ou o evento que se quer resconstruir não é, ou não parece
ser, tão importante assim.
Em
entrevista
dada ao canal
de televisão a
cabo
Globo News
[23],
Sonia Braga, depois de
falar
de seus vários
amores, foi solicitada a
dizer
se havia alguma coisa em
comum nas pessoas
pelas quais ela
se apaixonou. Talvez ela nunca
houvesse pensado nisso -- teve de pensar ali no ar. Disse
que achava que
não, que
se fossem todos colocados lado a lado,
provavelmente não haveria nada em comum entre eles. Noutro momento,
o entrevistador lhe perguntou por que ela nunca havia
se casado (resposta:
"talvez porque
ninguém tenha me
pedido").
Quando nos propomos escrever uma autobiografia, temos de ter
suficientemente
curiosidade
para nos fazer, e, tentar
responder,
questões desse
tipo. A questão pode
não
ter grande importância pública
-- mas certamente
é de interesse
autobiográfico.
Há muitos que se preocupam com
o passado -- mas
com o passado
dos outros (como
é o caso dos historiadores). Quem se propõe escrever uma
autobiografia está
preocupado
primariamente com o
seu passado. Ou
será que não,
a despeito das primeiras aparências?
Como já disse atrás,
quem se propõe escrever
uma autobiografia de certo modo
presume que tem
algo
importante ou
interessante a dizer, algo
que merece ser
dito. Quem
escreve uma autobiografia tem, na realidade, de se justificar por estar gastando tempo consigo mesmo que, quem sabe, poderia
ser mais bem gasto em outro empreendimento. Por
que, afinal,
escrever uma autobiografia?
A primeira resposta a essa pergunta, que de
certo modo já foi sugerida atrás, é dada por Sócrates. Não vale a pena viver uma
vida não examinada, disse ele – e o processo de escrever uma autobiografia é uma
forma de examinar a própria vida. Confesso que Vivi é o título que Pablo
Neruda dá a sua. A linda letra que Paul Anka dá à sua famosa canção, My Way,
é um projeto de autobiografia – uma busca de autoconhecimento
[24].
Raramente alguém jovem escreve uma
autobiografia. As razãos para isso não é preciso procurar longe.
Primeiro, o jovem não viveu ainda muito,
tem pouco para contar. Os velhos, por outro lado, acumularam tantas vivências,
têm a mente tão recheada de memórias, que, de vez em quanto, decidem colocá-las
no papel. Segundo, porque, nos mais idosos, a memória freqüentemente lhes começa
a faltar e têm receio de que, não registrando as suas lembranças, elas venham
pouco a pouco se apagando de suas mentes. Terceiro, porque os velhos vêem a
morte se aproximando e se sentem, às vezes, compelidos a dizer a que vieram –
como o fez Darcy Ribeiro, em suas Confissões. Já muito doente, seu maior
medo era o de morrer sem poder deixar registrado a que veio
[25].
Mas há uma outra razão, em parte parecida
com a anterior.
Lembro-me de um filme em que um homem jovem,
descobrindo que
era
doente terminal,
decide gravar em
vídeo sua
história para
o filho que
sua mulher
esperava
[26].
Queria que o
filho
conhecesse o pai, pudesse
ver
sua face,
ouvir sua voz, visitar a casa onde ele nasceu. Autobiografia
multimídia. Mas
o impulso é o mesmo.
Deixar registrado para a posteridade o que
somos – principalmente
para
aqueles que
nos são
caros, os nossos
descendentes, e
que
não vão
ter uma oportunidade
de nos conhecer,
ou de nos
conhecer bem, ou de nos conhecer como
queremos ser conhecidos...
Eu, pessoalmente, lastimo muito não ter
conhecido meu avô paterno e ter conhecido mal minha avó paterna. Meu trisavô,
pelo que consta, foi Governador da Província de Minas Gerais e Senador por
aquele Estado. Consta que sou aparentado do ex-Governador de Minas e ex-Vice
Presidente da República, Aureliano Chaves de Mendonça. Mas não há formas de eu
verificar isso com facilidade. Entretanto, gostaria muito de saber se isso é
verdade. Meus ancestrais, dos dois lados, segundo consta, são portugueses. De
onde vieram? Em Portugal há uma cidade chamada Chaves. Teriam os meus ancestrais
paternos vindo de lá? Não gostaria que meus netos e bisnetos ficassem tão no
escuro em relação ao seu avô ou bisavô quanto eu estou em relação aos meus.
Havia um programa na TV americana
em que
três pessoas
representavam o papel de ser
Mr. X – e apenas uma delas era o verdadeiro
Mr. X. Os entrevistadores podiam fazer todo tipo de pergunta aos três, e
os dois falsos
Mr. X podiam – na realidade deviam –
mentir
à vontade. O próprio
Mr. X era,
naturalmente,
obrigado a dizer
a verdade. No final
o apresentador perguntava aos
entrevistadores: "Who is the real
Mr. X?".
Na nossa vida desempenhamos vários papéis:
filho, aluno, amigo, namorado, marido, pai, professor (ou qualquer outra função
profissional). Somos, ao final, a somatória desses papéis – no entanto, nenhum
de nós, ao responder a uma pergunta sobre o que somos, diria que é filho,
marido, ou pai (exceto as mulheres americanas que não trabalham fora que, ao
serem entrevistadas em algum programa de TV, fatalmente se descrevem, ou são
descritas, como "a housewife and a mother", em evidente sinal de pobreza de
espírito).
Ao nos
definirmos, na
vida diária,
geralmente damos
nossa
profissão ou
função
profissional: sou professor,
ou
médico, ou
advogado. Ao fazermos isso, selecionamos uma persona e a privilegiamos
como
definidora de nós
mesmos.
Eu, hoje
em dia,
costumo responder, meio
brincando, que sou
avô
– avô do Gabriel, da Olivia, do
Guilherme, da Gabriela, do Marcelo, da Madeline, do Felipe... Entretanto, sabemos que
não podemos ser
identificados, ainda que preferencialmente,
por uma persona
em detrimento de outras – somos, na
realidade, a soma,
ou a mesclagem, de nossos vários papéis. Outros,
ainda, prefeririam
acreditar
que haja um
“substrato” misterioso por detrás de
todas as personae que representamos, e que
esse substrato
seria nosso “eu
real” – o resto,
apenas papéis.
Felizmente,
este não
é um livro
de filosofia (embora
o leitor a essa
altura
possa achar difícil
aceitar essa afirmação), e
não
temos necessidade de
resolver
a questão aqui.
O importante é que o podermos representar
diferentes personae é uma forma de nos permitir viver diferentes vidas –
ou viver em realidades virtuais que construímos para nós mesmos e que, não raro,
se tornam mais importantes do que as "realidades reais" que deveriam estar por
baixo (ou por detrás) delas.
O ator
profissional
vive várias personae nos filmes que faz, nas peças
que representa.
Eles
vão encarnando um
personagem atras do
outro, às vezes
mais
de um ao mesmo
tempo. Para
serem reconhecidos como bons atores, têm
de encarnar seu
personagem de
maneira
convincente -- ao ponto
de até mesmo
ser um pouco o personagem,
para lhe dar credibilidade.
Será que nessa
sucessão
de personae que
eles encarnam
eles
não acabam achando
que
tudo é persona, e
que não há um eu transcendental
que é o substrato
que representa
esses
personagens? Será
que
a instabilidade
emocional
evidenciada por
vários
atores não
é decorrente desse mudar
muito
rápido de papel
que a profissão
lhes impõe e que
pode lhes acarretar
uma perda gradual
da identidade
própria,
que fica cada
vez mais
mesclada com os papéis, com a identidade
dos personagens?
[27]
Os loucos, por outro lado, aparentemente se
fascinam tanto por uma persona que, consciente ou inconscientemente,
cortam o vinculo que os prende ao eu real, passando a ser, realmente, a
persona.
Mas não teríamos, nós todos, um pouco de
atores em nós – ou, quem sabe, até mesmo de loucos? Será que o processo de
escrever uma autobiografia não nos ajudaria a resolver algumas dessas questões?
Eu, pessoalmente, venho me
reconhecendo com uma
pessoa
que vive,
eminentemente, numa realidade
virtual. Ela é muito mais bela, e, em muitos sentidos, muito
mais real
-- alem de ter a enorme
vantagem de ser
(pelo menos em parte)
construída por
mim
mesmo, e,
portanto,
imune às
interferências,
geralmente não
muito benvindas, das realidades reais
de outras pessoas.
O que
é a literatura, o que é o
cinema, o que
é a novela, se
não
realidades
virtuais
compartilhadas? Mas
todos
nós temos a nossa
realidade virtual que, embora freqüentemente não
traduzida em
palavras
e imagens compartilháveis, ajuda a dar
direção
à nossa vida
e a fazer a nossa
passagem pela
realidade real
da vida mais
interessante (ou
menos
desinteressante…). Animais (irracionais), imagino, não
têm realidades
virtuais. Coube a nós,
seres
humanos, criá-las, e é essa capacidade que nos distingue das brutas feras.
Apesar de eu
em muitos
aspectos (essenciais,
diria) ser um
realista epistemológico, pois acredito que a gente nunca deve tentar mascarar a realidade (real), acredito que
Platão estava certo
quando
dizia que a realidade
das idéias (realidade
virtual) é, num certo
sentido, mais
importante do que
a realidade das coisas
(realidade real).
Está ai o pessoal de marketing para me dar
razão: a percepção é
mais
importante do que
a coisa, a versão
do que os fatos...
Não
vejo incompatibilidade entre
o que acabei de dizer
e o meu reverenciado realismo filosófico. Ao falar
em realidade virtual a gente sente
a necessidade, ao
mencionar
a realidade não-virtual, de designá-la de "realidade real" --
mas isso
parece redundante. No entanto, se é tautológico
falar em realidade real seria contraditório falar em realidade
virtual? Seria a realidade
virtual
uma espécie de da "realidade
não-real"? Mas
isso
é impossível.
Logo,
per absurdum, a
realidade
virtual só
faz sentido como
uma espécie da
realidade
real -- ou
seja, dentro da
realidade
propriamente dita.
Quando
a gente se dá conta disso, tudo fica mais claro. A literatura, por exemplo, e o
cinema e as novelas
que nela se baseiam, tudo isso é ficção. Um personagem de ficção,
portanto, não
é um personagem
que realmente
viveu. No entanto, uma vez criada, a ficção passa a ter a sua realidade. Na verdade, Sherlock
Holmes é (em um
certo sentido)
mais real
do que muita
gente de carne
e osso: ele
tem uma aparência
característica, uma personalidade
mais
ainda, e assim
por diante.
Tanto Conan Doyle, o autor, como
Sherlock Holmes, o personagem, são reais -- mais seria evidência
de loucura se achássemos que são reais no mesmo sentido… No entanto,
há um sentido
em que
Sherlock Holmes é mais real do que
Conan Doyle, que o criou, que Romeu e Julieta são
mais reais
do que Shakespeare. Os personagens acabaram se tornando
mais
conhecidos do que
os seus autores,
a criatura se tornou mais importante
do que o criador…
Venhamos agora
às nossas vidas.
Todos
nós temos uma
vida
publica, que os
outros
podem observar. Geralmente
pensamos que a pessoa
real é aquela que
vemos. Mas isso
é porque, em
relação aos
outros,
todos somos behavioristas. Em relação a nós mesmos, nós, se formos realmente
realistas (!), vamos concluir
que
nossa pessoa
publica o mais das
vezes
não passa
de uma persona -- um personagem
-- que nós
representamos para consumo
externo. Nós
mesmos
(se não nos
tornarmos demasiado
crédulos
na nossa
capacidade
de representar) sabemos
melhor: sabemos que
nosso
eu real,
que só
nós conhecemos, é
muito
diferente. Em
relação a nós
mesmos, não
precisamos ser behavioristas: temos a possibilidade
de aceder diretamente
aos nossos
pensamentos
e sentimentos
mais
íntimos, que,
não raro,
não ousamos revelar
a ninguém…
Muita gente se assusta quando se descobre
assim nu, porque se acostumou tanto a se ver pelos olhos dos outros. É preciso
ter um grau enorme de coragem para se olhar no espelho da alma e se reconhecer
ali, sem as máscaras que as personae usam.
A maioria de nós, se confrontados por
alguém que, se referindo à nossa pessoa pública, dissesse que não somos aquilo,
reagiria negando (como faz o louco), porque admitir a veracidade da acusação
seria admitir a falsidade de nossa pessoa publica.
A noção de realidade virtual é muito mais
antiga do que muitos pensam. Em Platão, a nossa vida aqui na terra é virtual --
é uma sombra, uma imagem. A vida real está no mundo das idéias (que hoje
chamamos de virtual). E assim cheguei ao Mito da Caverna...
Li, recentemente, uma biografia de Balzac,
escrita por Graham Robb, que ressalta o fato de que, para entender a vida de
Balzac, é preciso ler sua obra, e, para realmente ler a sua obra, é preciso
conhecer a sua vida. As duas coisas estão de tal forma interpenetradas, que,
segundo o biógrafo, freqüentemente é difícil demarcar o real do virtual,
diferenciar o escritor de seus personagens.
Em menor grau, algo semelhante
acontece conosco. Criamos nossas realidades virtuais,
as coisas que
imaginamos ou desejamos
ter, e, no fim, fica
difícil
separar o real
do virtual, o vivido
do que se desejou viver.
É que, se não
dá para, na vida
real, ser (ou ter) tudo que se quer, na virtual dá -- às vezes, com muito mais satisfação – basta querer. (Os maiores amores platônicos
provavelmente não teriam sobrevivido uma
semana de vida
conjugal...).
Mas o que tem tudo isso que ver com uma
autobiografia?
Alguns
escrevem uma autobiografia para passar a idéia de que uma de suas
personae é seu
eu real.
Imagino que Simone de Beauvoir, ao admitir, sem o menor constrangimento, que não
pretendia dizer a verdade
em relação
a muitos
episódios
de sua vida,
tinha a intenção
de deixar que
os outros viessem a
acreditar
em algo
falso acerca
dela própria.
Outros escrevem uma autobiografia para
passar a idéia de que não se indentificam com suas personae, que seu eu
real é muito diferente (e mais interessante) do que suas faces públicas.
Construímos nosso passado – e, Locke
estando certo, nossa identidade -- a partir de fragmentos de evidência
perpetuados na memória – da mesma forma que o historiador constrói o passado a
partir das evidências que o passado nos legou. Por que nos lembramos tão bem de
algumas coisas, não raro distantes no tempo, e, às vezes, até desimportantes, e
temos tanta dificuldade para lembrar outras, às vezes recentes e até mesmo
importantes? Por que traumas nos levam a perder a memória daquilo que os
circundou? [E.g., o rapaz que sobreviveu ao acidente com Diana]. Por que a
memória é tão seletiva? Seria porque, inconscientemente, tentamos preservar
apenas aquilo que na identidade que queremos exibir ao mundo, aquilo que se
harmoniza com nosso “public self”?
Seria verdade que tudo o que vimos, sentimos, pensamos está registrado na memória, mas nosso poder de recuperação é que
é limitado? Seria mesmo o problema, não com o nosso
"memory bank", mas com a nossa
"retrieval machine"? Poderia a
hipnose, por
exemplo, nos
dar acesso a memórias que
doutra forma ficariam para
sempre
inacessíveis, perdidas? Existiriam outros métodos de "direct memory access", sem precisar
passar
pelo "operating system" que tem uma "retrieval machine" de recursos limitados? Seriam as
terapias
psicanalíticas e as envolvendo hipnose, para não mencionar os métodos
de reprogramação neurolíngüistica, formas
aceitáveis de alterar
o de que nos
lembramos e, assim,
mudar
nossa identidade
e, conseqüentemente, nossa personalidade?
E se, no processo de escrever uma
autobiografia, vimos a nos lembrar de coisas de que não nos lembrávamos, e a
descobrir que algumas de nossas memórias eram inverídicas, estaremos nós mudando
a nossa identidade no processo? Neste caso, a pessoa que terminou de escrever a
autobiografia não seria a mesma que começou a escrevê-la?
Caro leitor: não se
desespere. Eu sou
isso
aí. Eu
sou as coisas que
aprendi a fazer. Eu
sou os problemas
que
um dia
achei interessantes. Eu sou aquele que não consegue deixar de levantar essas questões
que você bem pode achar idiotas.
Darcy Ribeiro, em suas Confissões,
diz que, quando sua mãe estava morta, começou a cantar uma música de procissão,
de que, em outras condições, nunca se lembraria de que conseguiria lembrar:
"Saiu de mim uma cantiga de procissão que eu não me lembraria nunca de que me
lembrasse"
[28].
A construção é canhestra: parece envolver a lembrança da lembrança, a memória da
memória…
Darcy Ribeiro, na obra mencionada, também
conta o caso de quando reencontrou um antigo diário e, ao lê-lo, percebeu quanta
coisa havia acontecido em sua vida das quais não mais se lembrava, quanta coisa
havia acontecido das quais as suas memórias atuais, quando confrontadas com o
que dizia o diário, estavam totalmente equivocadas
[29].
Doris Lessing também observa que, ao forçar a vinda para o consciente de
memórias por muito tempo ilembradas, perguntava-se se realmente havia sido tão
má -- ou tão boa, ou tão ingênua -- assim
[30].
As pessoas têm memórias umas das outras. Às
vezes essas memórias são negativas. Um dia, entretanto, algo acontece e as
pessoas começam a ver os mesmos fatos sob uma outra luz – e as memórias se
alteram. A negatividade das memórias iniciais talvez tenha feito a pessoa
soterrar no subconsciente algumas memórias que possuissem uma “dissonância
cognitiva” com as memórias privilegiadas -- porque essas memórias colidiam com a
imagem que queriam manter da outra pessoa. De repente, algo acontece, e torna-se
possível abrir um canal com o passado que permita que as boas memórias fluam de
novo. O passado se reconstrói. Será uma construção mais fiel do que a anterior?
Serão ambas legítimas, fotografias de diferentes momentos do nosso
being-in-motion?
Por que tudo tem de
ser tão
complicado?
A idéia
de escrever minha autobiografia foi surgindo
naturalmente
a partir do momento
em que
coloquei meu site
pessoal na
Internet.
Isso se deu em
Setembro de 1995,
quando
completava 52 anos (Rousseau começou a preparar suas Confissões quando tinha 54
anos). Escrevi
ali
um primeiro esboço autobiográfico,
e gradativamente fui acrescentanto material, revelando mais
e mais de mim
mesmo.
Em
19 de fevereiro
de 1997, numa passagem escrita depois
de ler alguns
comentários que
alguém fez sobre
o meu site,
afirmo:
“Que bom que você gostou do meu site particular.
Há momentos em
que acho que,
no arremedo de autobiografia,
acabei me despindo
demais, fazendo quase
que
um strip tease da
alma... Se o resultado
ficou de certa forma
parecido comigo, deu certo. Mas seja
lá qual
for o resultado,
eu
gostei de tentar capturar
em palavras
um monte
de coisas até
aqui apenas
vividas. Quem sabe
ainda
escrevo uma autobiografia pra valer, apenas para consumo próprio e de alguns poucos amigos?”
Quando
decidi escrever minha autobiografia iniciei uma busca
por mim
mesmo: buscava
pedaços
de mim mesmo
perdidos por esse
mundo afora.
Muita gente
fez parte do meu
passado – todos
aqueles com
quem interagi. E
eles
podem se lembrar de
incidentes
de minha vida
dos quais eu
não mais
me lembro –
pedaços
de mim mesmo
que eu
perdi. Com isso,
a minha interação
com o meu
passado alcançou
níveis
de obsessão.
Cartas,
diários, livros,
artigos – não
só meus,
mas dos outros
com os quais
interagi – tudo
isso
passa a ser parte de uma busca
interminável por
pistas que
podem vir a reacender uma
nova trilha
de memórias que
me vai me
permitir encontrar pedaços de mim mesmo que eu já soterrei em meu inconsciente!
Assim a vida passa, a gente fica mais
velho, hopefully wiser, e fica mais interessado em avaliar o que passou antes –
o que fui, o que sou. Normalmente, lembro-me apenas de pequenos trechos de minha
vida. Com esforço, e a ajuda de outros, vou tentar pegar uma agulha e alinhavar
os pedaços soltos e fazer uma autobiografia. Por isso o meu interesse atual em
reencontrar velhos amigos, reatar velhos contatos, amarrar as pontas dos fios
dos velhos amores para que os tecidos não desfiem mais do que já desfiaram pelo
desgaste natural do tempo.
Neste caso, vide Rousseau.
A seção
anterior
busca explicar
por que
escrevemos autobiografias. Aqui se tenta explicar por que as publicamos. Nada
nos impediria de
escrever
nossas autobiografias, de
reencontrar
os pedaços de nós
mesmos – e,
depois,
guardar os tesouros
encontrados só para
nós. Não,
a intenção de
quem
escreve uma autobiografia geralmente é vê-la publicada – é
compartilhar
as memórias, tornar
público o que
era privado.
“Shared memories”.
Memórias não
raro são
compartilhadas. Rodas de amigos nostálgicos, encontros
em que
se comemoram x anos de formatura, associações
de ex-alunos – todas essas iniciativas são tentativas
de compartilhar memórias,
ou de reacender
memórias de
experiências
que um
dia foram compartilhadas – e, conseqüentemente, de enriquecer
a identidade das
pessoas.
O que
dá identidade a uma amizade
ou a um
casamento são
as memórias compartilhadas. O sucesso ou o fracasso de um
relacionamento depende dessas memórias
compartilhadas. Se elas são predominantemente boas, o relacionamento sobrevive.
Caso contrário,
desmancha-se, deixa de
existir
– perde a identidade. É muito mais difícil desmanchar, e, depois de desmanchado, deixar
extinguir, um
casamento em que há filhos, porque estes são a corporificação de
memórias
compartilhadas.
Nações
e grupos sociais
adquirem sua
identidade
através das
memórias
que seus
membros compartilham. Não era à toa que o povo de Israel era
instruído a repetir diariamente: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou da
terra do Egito”. Considerar-se
parte
de uma nação, de
um
grupo social,
é assimilar como
suas as memórias
do grupo. O
sentido
do estudo da
história
de um povo
na escola é inculcar
nas crianças essas
memórias
de fatos há muito
tempo acontecidos – e alguns, às vezes,
de forma bem diferente da transmitida. A
Viagem
de Cabral, a Carta de Caminha, a Inconfidência
Mineira, o Grito
do Ipiranga, a Proclamação da República
– memórias que
se pretende ver compartilhadas
por
todos os
brasileiros. Outras memórias
às vezes
se tenta suprimir,
mas nunca
por muito
tempo: a Guerra
de Canudos, os
Quilombos
dos Palmares… Para
os grupos que
vêem nessas memórias parte integrante
de sua identidade,
suprimi-las, ou
mesmo
negligenciá-las, não lhes dando muito
importância, equivale a uma perda de identidade.
Por que é que os grupos étnicos fazem tanta
questão de preservar suas memórias, sua língua, suas canções, suas roupas, senão
para manter sua identidade étnica?
Os estrangeiro que, imigrando, chega a um
novo país, e prontamente lhe adota a língua, os costumes, os valores, está
mudando de identidade. Por isso geralmente é mal-visto pelos companheiros que
retêm os traços culturais – as memórias – trazidos do país original.
Compartilhar, até aqui,
envolveu basicamente assimilar,
receber
de outros (geralmente
dos mais velhos)
o que é deles.
Mas
compartilhar também
significa dar a outrem
o que até
aqui é só
nosso. Os que
se casam com uma pessoa
de outra
nacionalidade,
cultura ou
raça, em geral precisam se esforçar para compartilhar identidades – isto
é, memórias.
Quando a gente compartilha com outrem uma
memória importante, nosso eu se torna em parte público, damos um pedaço de nós
mesmos a outrem – parte de nossa identidade passa a pertencer a outrem. Quem
publica sua autobiografia compartilha com outros suas memórias, dá-se de si aos
outros, mesmo que desconhecidos – mas nunca estranhos.
Alguns autores de autobiografias tentam até
selecionar a quem querem se dar. Eis o que diz Darcy Ribeiro no Prefácio de suas
Confissões:
“Quero
muito
que estas minhas
Confissões
comovam. (...) Meu
propósito, nesta recapitulação,
era saber e sentir como é que
cheguei a ser o que
sou. Quero também
que sejam compreendidas. Não por todos, seria demasia; mas por aqueles poucos que viveram vidas
paralelas e delas deram ou querem dar notícia. Nós
confessamos é uns aos outros, os de nossa iguala, não
aos que não
tiveram nem terão
vidas
de viver, nem de confessar. Menos ainda aos
pródigos de
palavras
de fineza,
cortesãos. Quero inclusive o
leitor
anônimo, que
ainda não
viveu nem deu
falta.
Mas tem coração
que pulsa,
compassado com
o meu. Talvez
até que
me ache engraçado,
se alegre e ria
de mim, se tiver
peito.
Não me
quer julgar, mas entender, conviver. Não
quero mesmo é o
leitor
adverso, que
confunde sua vida
com a minha,
exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os
dolorosos,
conforme sua
pobre noção
do bem e da dignidade.
O preço da vida
se paga é vivendo,
impávido, e recordando fiel
o que
dela foi dor ou
foi contentamento” (pp.11-12).
Agatha Christie, em sua autobiografia, diz:
"(...) Deveria
estar
escrevendo um
romance
policial; no entanto,
com aquela
natural
tendência do
escritor
para escrever o que quer que for, exceto aquilo que
deveria estar escrevendo,
inesperadamente
senti vontade de
escrever
minha
autobiografia.
Esse anseio
de escrever a propria
biografia, ouço dizer,
tarde
ou cedo
se apossa de uma pessoa. Subitamente tomou conta de mim. Pensando
melhor, a palavra
autobiografia é
por
demais pomposa.
Sugere o propósito de elaborar
um estudo
acerca da própria
vida. Implica escrever
nomes, datas
e lugares em
cuidadosa ordem cronólogica. Porém, o que desejo mesmo é mergulhar minha mão em uma espécie de caverna
misteriosa e dali extrair um
punhado das mais
diversas recordações. Em meu entender, a vida consiste em
três partes:
o absorvente e habitualmente
agradável presente,
que corre minuto
a minuto com
velocidade fatal;
o futuro, obscuro
e incerto, quanto ao qual podemos fazer inumeros
planos interessantese, se insólitos e improváveis
tanto melhor,
visto que
-- como nada
virá a ser como
esperávamos que fosse --- ao menos nos
divertimos enquanto planejavamos; e a terceira parte,
o passado, as recordações e as realidades que são os alicerces
da vida presente
e que nos
surgem de repente, trazidas por um perfume, pela forma de uma colina, qualquer canção
antiga, trivialidades que nos fazem de
súbito murmurar 'Eu me
lembro...' com um
peculiar e quase
inexplicável prazer.
Esta é uma das compensações que a idade nos dá e, certamente,
muito agradável:
recordar. Infelizmente
muitas vezes não
só desejamos recordar
como também
desejamos falar de nossas recordações. E isso, há que
repetirmos a nós proprios, é maçante para os outros. Por que deveriam eles
estar interessados, afinal,
em recordações alheias, se se trata da nossa vida e não da vida deles? Por
vezes, porém,
quando são
jovens, concedem a nossas recordações certa curiosidade
histórica"
[31].
O que eu quero ser – os meus objetivos são minhas memórias projetadas para o futuro, são as memórias que eu vou querer ter daqui a algum tempo. Ayrton Senna, antes
das corridas, se concentrava correndo, em sua mente, a corrida
que em
poucos minutos
iria correr na pista.
Ele se via
acelerando, ultrapassando adversários,
ganhando a bandeirada de chegada. Era isso que o
ajudava a fazer do que
era, num momento,
a sua imaginação,
no momento
seguinte, a sua
memória.
Ele
“remembered forward”.
A contrapartida de “forward remembering” é “backward
hoping”. Há um
samba, acho que
interpretado pela Beth Carvalho,
parece que chamado "Foi Mangueira que
chegou", que diz: "Nossos barracos
são castelos
na nossa
imaginação". Fico pensando se isso não é verdade também na nossa
memória. Imaginamos
castelos
onde de fato
só existiu um
barraquinho. Se, um
dia, alguma coisa
precipitar o
reconhecimento de
que
foi só um
barraco, vamos rejeitar
o fato para ficar com a memória. Este é
um exemplo
de “backward hoping”. Projeta-se no passado aquilo que se deseja para o futuro.
Nós somos, portanto, não apenas o que
fomos, mas, também, o que queremos ser. “Memory and Hope”. Título de um
livro de um dos mais importantes professores que eu tive, Dietrich Ritschl (neto
do famoso teólogo Albrecht Ritschl, que viveu no século XIX). Tanto quanto eu
saiba, foi ele que cunhou as expressões “forward remembering” e “backward
hoping”.
Mas chega de tantas preliminares. Vamos ao
propriamente dito.
NOTAS
[1]
Rousseau and Revolution: A History of Civilization
in France, England, and Germany from 1756, and in the Remainder of
Europe from 1715, to 1789 (Simon and
Schuster, New York, 1967), p. 4.
[2]
Hesitei um
pouco
antes de optar
pela palavra
“reconstruindo”, porque, como se verá, também
faz bastante
sentido
afirmar que,
ao vasculhar nossas
memórias, estamos na realidade
“construindo” nosso passado.
Reconstruímos ou construímos o nosso passado?
Essa questão vai aparecer
frequëntemente nas páginas que seguem.
[3]
Essays Concerning Human Understanding, Livro II, Capítulo
XXVII, Parágrafo 15.
[4]
Op.cit.,
Parágrafo
10.
[5]
Op.cit.,
Parágrafo
13.
[6]
Op.cit.,
Parágrafo
19.
[7]
Op.cit.,
Parágrafo
25.
[8]
O nome do
filme
é Regarding Henry (1991). Nele Harrison Ford representa o
papel de Henry Turner, que perde a memória
depois de receber
um tiro.
A direção é de Mike Nichols e o
roteiro
de Jeffrey Abrams. Vide
http://us.imdb.com/Details?0102768#comment.
[9]
Locke, ao discutir a transmigração de almas, cuja
possibilidade ele,
como
vimos, admite, nega
que
uma alma reencarnada seja a mesma pessoa da encarnação anterior,
porque as
memórias
não se preservam (a
despeito
das famosas experiências de
déjà vu, usadas pelos
defensores da reencarnação como evidência favorável à sua tese). Cf. op.cit.,
Parágrafo
[10]
Se a identidade
pessoal
depende da memória, e não de características
do nosso
corpo, a possibilidade (admitida
por Locke) de que na ressurreição
final possamos ter
corpos diferentes
do que os
que
ora possuímos não
representa nenhuma objeção à
tese
de que no
juízo
final seremos nós
mesmos que
seremos julgados -- desde que, naturalmente,
os novos
corpos
retenham as memórias dos velhos. Locke não
tinha dúvida,
como fica
evidente
nas passagens citadas atrás, de que a
pessoa é, na realidade, o
self, não
o corpo
que
esse self possa
estar num dado
momento habitando.
Em
outras palavras:
ele
era um
dualista, não
um
monista materialista.
[11]
Originalmente publicado em 1970 por G.
P. Putnam's Sons.
Minha
cópia, comprada
em
Claremont, CA, em
Setembro
de 1973, se descreve como "first time in paperback" e foi publicada por Berkeley Publishing Company,
em
1971 e reimpressa várias vezes.
[12]
Karl R. Popper e John C. Eccles escreveram um
livro interessantíssimo que tem como título: The Self and its Brain (Routledge &
Kegan Paul, London, 1977, 1983).
A escolha do título já é indicativa do fato
de que, para eles, nós somos
nosso self – o
corpo é a “casa do self”.
Não deixamos de ser
quem somos por
termos nos
mudado de casa.
[13]
Em 22 de Novembro
de 1997 (dia do
vigésimo
segundo
aniversário
de minha
filha
mais nova),
escrevi a minha
amiga
Ana Maria Tebar. “À
tarde
recebi um
e-mail
do Deoclécio [Silveira do
Amaral], meu amigo do J [Instituto
“José Manuel da Conceição” escola em que, interno,
fiz o Curso
Clássico],
com quem
não conversava há uns 30 anos, desde que eu e ele vivíamos nos
EUA. Ele
ainda
vive, no mesmo
emprego
que tinha
naquela época, numa
escola
secundária: New London Senior High
School. Foi bom
ler
a mensagem dele. Recebi também outra mensagem do Weldon Lodwick (filho
do [Rev. Robert] Lodwick que tem um artigo no site [http://jmc.org.br]), e fiquei sabendo que o irmão
dele, que estudou na minha classe, tem um caso severo de depressão. É o passado que sai
do lugar
confortável
em que
se encontrava e vem me rodeando. São as memórias
do colecionador de
memórias
que o cercam e acabam por quase
obcecá-lo. Por
que
eu me
preocupo com o
passado
assim? Será
porque
a gente é o
que
foi? Eu
sempre
acreditei que a
gente
é o que
quer
vir a ser! Que é o meu futuro que me condena! O que
está o passado fazendo aqui, me
fustigando, me ressuscitando lembranças já
enterradas em
mais
do que
sete
palmos de
memórias -- como
a foto da Dorothea [Machado
Kerr, citada em
outra
mensagem]... o
intróito
escrito com
o Jonas [Christensen, citado em outra mensagem]...
o ter sido amigo
secreto da Queila Faustini [citado em outra mensagem]... Por
que as pessoas
se lembram dessas coisas, meu Deus? Ela, Queila Faustini, com
câncer, morrendo [lá
nos Estados
Unidos] e se lembrando de que em 1962 foi minha
amiga secreta
[lá no
Instituto
“José Manuel da Conceição”] e 'me
enrolou', segundo disse, numa correspondência daquelas de bilhetinhos...). Por que a gente não se
lembra do que comeu
ontem
e se lembra dessas coisas [de mais de 35 anos
atrás]? Que
mecanismos
estranhos
operam na nossa
mente? A gente é o
que
foi. Locke já dizia
isso: a base da
identidade
pessoal é a
memória. Se eu as
perder, deixo de ser
quem
sou. Passo a
ser
um outro
ser, com a mesma impressão
digital. Será que
é justo punir
um nazista de
80 anos
pelos
crimes que
cometeu quando
tinha
25? Será que a
memória
dele já
não
o puniu bastante? Será que ele
conseguiu esquecer?
Amnésia
autoimposta. Self-imposed amnesia.” Algo parecido com
essas considerações
finais
me ficou
extremamente
claro quando
tive um
problema
no meu
computador
principal, naquele mesmo
ano de 1997,
quando
dirigia a People, e perdi a maior parte de meu arquivo de mensagens.
Fiquei desesperado, porque grande parte de
minha memória
auxiliar acabava de ser
apagada. Era
como se um
pedaço de mim
mesmo me
houvesse sido arrancado. Felizmente,
das
mensagens mais
importantes eu
possuía cópia: as
profissionais,
por havê-las redigido
primeiro
em Microsoft Word, e as pessoais porque,
no caso das
realmente
importantes, a
Ana
Maria Tebar havia preservado uma cópia,
das delas e das minhas.
[14]
A psicanálise tem
casos
impressionantes de
pessoas
que, tendo reprimido a memória de um acontecimento traumático, criaram, por assim dizer, uma “memória substituta”, inverídica mas
menos desagradável. Voltaire, numa frase célebre,
dizia que
nunca
tina contado nenhuma mentira,
mas que
havia inventado muitas verdades...
[15]
Debaixo da
Minha
Pele: Primeiro
Volume da Minha
Autobiografia,
até
1949 (Companhia das Letras, São
Paulo, 1997; original: Under
My Skin: Volume
One of my Autobiography, to 1949, 1994;
tradução
de Beth Vieira), pp. 21-22.
[16]
Um livro
interessante nesse contexto é
Autoengano, de ...
[17]
É verdade que,
em casos
de repressão,
nos
convencemos de que
algo
não aconteceu, ou
não aconteceu de
um
determinado jeito,
quando realmente
aconteceu, ou aconteceu de modo diverso. Se
os psicólogos estão certos, a repressão
não fica
totalmente
impune: aquilo
que foi reprimido reaparece de outras formas, causando problemas
psicológicos de
vários
tipos.
[18]
Em sua
Introdução à
edição
das Confissões
de Roussau na série "Wordsworth
Classics of World Literature", Derek Matravers coloca o dedo no essencial
de uma autobiografia: "The
Confessions is autobiography, not fiction, and as such, it purports
to describe what actually happened. In the main,
Rousseau's claim to veracity is supported by modern scholarly opinion.
Ocasionally he has lapses of memory, and gets his dates wrong or
misjudges the time
he spent at some place or another. On other occasions . . . the
suspicion is that the facts are
deliberately bent in his favour. Overall, however, his reliability as a
witness and the range of experiences on which he was able to draw give
their own value to the memoirs, as Rousseau himself realised" (Rousseau,
The Confessions, with an Introduction by Derek Matravers,
Wordsworth Classics of World Literature, London, 1994, pp. vii-viii).
[19]
Darcy Ribeiro,
em
parte por
saber que
estava no fim da
vida,
não se preocupou
em
fazer scholarship
em sua
autobiografia --
isso
é tarefa de
biógrafo, diz ele.
"Este
livro meu,
ao contrário dos
outros
todos, cheios
de datas e
precisões, é um
relato espontâneo. Recapitulo
aqui, como
me vem à cabeça,
o que me
sucedeu pela
vida
afora, desde
o começo,
sob
o olhar de Fininha [a
mãe],
até agora,
sozinho nesse
mundo.
Muito relato será,
talvez, equivocado em
alguma coisa. Acho
melhor que
seja assim,
para
que meu
retrato do que
fui e sou me
saia
tal como
me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisa.
Isso é tarefa
de biógrafo. Se
eu
vier a ter algum,
ele que
se vire, sem
me
querer mal por isso" (Confissões
[Companhia das
Letras,
São Paulo, 1997], p. 11).
[20]
Registre-se que tem havido grande interesse,
por parte
de alguns historiadores voltados para biografias, em enveredar pelos meandros
da mente dos biografados. Alguns dos perfis de Richard Nixon que foram traçados depois
de sua
renúncia
da Presidência dos
Estados
Unidos são verdadeiros estudos psicológicos
-- o que,
naturalmente,
não quer
dizer que
sejam corretos.
[21]
Na historiografia questão
análoga
se levanta quando se
pergunta
por que
precisamos sempre
reescrever
a história,
por
que não
é possível
escrever
uma história
definitiva
de um
país
ou de algum
evento histórico.
[23]
Essa entrevista foi
levada
ao ar em
3 de Janeiro de 1998 -- não sei se pela
primeira vez
ou em
reprise.
[24]
"I've lived, I've laughed and cried, I had my
tears, my share of losing; and now, as
tears subside, I find it all so amusing! To think, I did
all that, and -- may I say -- not in a shy way, oh
no, oh no not
me, I did it my way. Regrets, I had a
few, but then again, too few too mention. I did, what I had to do, and
saw it through, without exemption,
[25]
Darcy Ribeiro, op.cit., p.
11: "Escrevi estas Confissões
urgido por duas lanças.
Meu medo-pânico de
morrer
antes de dizer
a que vim.
Meu
medo ainda maior de que
sobrevivessem as dores terminais e as drogas
heróicas trazendo com elas as bobeiras
do barato.
Bobo
não sabe de nada.
Não se lembra de
nada.
Tinha que
escrever ligeiro,
ao correr da pena.
Hoje, o medo
é menor, a
aflição
também. Melhorei. Vou
durar
mais do que
pensava".
[27]
Segundo me
consta, Fernanda Montenegro uma vez
disse, numa entrevista,
que, tendo vivido
tantas realidades
virtuais, no palco,
no cinema
e na TV, na vida
real
ela não
precisou viver mais
do que uma
realidade
bastante
rotineira, 40 anos
com
o mesmo
homem, etc. A afirmação faz
sentido. Mas, por outro lado,
parece que a
diversidade
das realidades
virtuais
vividas por
muitos
atores parece fazer
com que
eles comecem a buscar,
na vida
real, uma diversidade
que
imite a da esfera
virtual, casando-se, descasando-se, casando-se de
novo, à la Elizabeth Taylor e Zsa Zsa Gabor. Tentam
fazer com
que a vida
imite a arte.