No JMC: 1961-1963

Eduardo Chaves


1. O JMC nos Deu Educação

Meu pai, Oscar Chaves, já havia estudado no JMC, na década de trinta. Eu lá cheguei cerca de 25 anos depois, em Fevereiro de 1961, para iniciar o Curso Clássico. Tinha 17 anos. Formei-me em Novembro de 1963, numa cerimônia da qual fui orador da turma e que teve o então deputado Camilo Ashcar como paraninfo.

A experiência no JMC me marcou. Ali o adolescente, recém menino (cheirando a fraldas, como dizia meu pai), virou gente grande: cresceu intelectualmente, começou a tomar conta de sua vida, aprendeu a assumir responsabilidade pelos seus atos, apaixonou-se mais de uma vez. Escola de vida.

Michael Hammer, o guru da reengenharia, disse, em seu último livro, que educação é aquilo que resta depois que a gente esqueceu o que nos foi ensinado. No caso do JMC, restou muito.

Nos estudos, o principal remanescente foi o gosto pelo saber, o entusiasmo pela descoberta, o desejo constante de aprender. No meu caso particular, há várias instâncias disso.

Em primeiro lugar, menciono o amor pelo língua e pela cultura francesa, que me foi despertado pela Dona Elza Fiuza Telles. Ah, como era bom ter aula de Francês com ela, escutar sua pronúncia linda, virtualmente sem sotaque, ouvi-la falar sobre literatura francesa. O livro texto era Langue et Civilisation Française, de G. Mauger, até há bem pouco tempo usado nas Alianças Francesas, mas a gente não se limitava ao livro texto: lia os originais. Em suas aulas li Racine, Molière, Chateaubriand, de Musset, de Vigny, Hugo, Stendahl, decorei Le Lac, de Lamartine, o Salmo 23 – “L’Éternel est mon berger, je n’aurai point de disette”. E não ficávamos só nos clássicos: li, por exemplo, Alexis Zorba (Zorba o Grego), de Nikos Kazantzakis, em francês no terceiro ano clássico, num sistema de leituras independentes em que Dona Elza deixava que cada aluno progredisse em seu próprio ritmo. O gosto pela língua e civilização francesa continuam até hoje: sou membro do Conselho Diretor e um dos sócios cotistas da Aliança Francesa de Campinas (que é uma instituição educacional e cultural sem fins lucrativos).

Em segundo lugar, é preciso registrar o amor pela língua inglesa, que foi despertado e nutrido pela Dona Jean Pemberton. Tanto nas aulas, como, especialmente, no famoso English Club, Dona Jean também nos ajudava a dominar e a amar o Inglês, a aprender famosas canções como “Oh! Give me a home, where the buffalo roams, where the deer and the antylope play, where seldom is heard a discouraging word, and the sky is not cloudy all day”, a decorar “tongue twisters” como “Peter Piper picked a pack of pickled peppers”, e a repeti-los com rapidez, a cantar Christmas Carrolls, etc.

Mas o Português não pode ser esquecido. O Reverendo Joaquim Machado fazia com que achássemos extremamente interessante e útil aprender as regras mais complicadas da colocação de pronomes, da crase, das funções da partícula “se”, etc., e nos dava redações para casa sobre temas como “O pobre muda de dono mas não muda de sorte”... Na aulas de literatura, com o Reverendo Renato Fiuza Telles,  tive que fazer trabalhos sobre o Teatro de Gil Vicente, as cartas de amor da Sóror Mariana Alcoforado, Senhora, A Moreninha, Helena, e o sempre clássico Dom Casmurro: “Capitu: Culpada ou Inocente” – talvez culpada, quem sabe inocente? – foi o tema de um de meus trabalhos de literatura brasileira.

E o Latim com o Reverendo Fernando Buonaduce? “Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Quousque tandem iste tuus furor...” E Grego, de novo com a Dona Jean? Psicologia, Lógica e História com o Reverendo João Euclydes Pereira? Matemática com o Reverendo Aureliano Lino Pires? Até um pouco de Física tivemos, com o Samuel Xavier (irmão do Josué, marido da Isva Ruth, a eficiente Secretária da escola).

Onde é que um aluno de segundo grau hoje aprende tudo isso?

Em termos de enriquecimento cultural, não se pode esquecer da música. A pessoa de João Wilson Faustini, o Coral regular  do JMC, o Coral especial para o Billy Graham, o coral do Recital no Municipal, o Coral da Quinta Igreja Presbiteriana Independente, em Osasco, regido pelo meu amigo e companheiro de quarto no segundo ano, Jonas Christensen, o Coral Johann Sebastian Bach, em São Paulo, do qual participei, levado também pelo Jonas, os Concertos Matinais Mercedes Benz em São Paulo nos domingos de manhã, Concertos no Municipal em algumas sextas-feiras, dos quais me recordo especialmente de um em que, pela primeira vez, ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven, na companhia do Faustini (e em meio às lágrimas inctroláveis dele), e tanto mais. A sensibilidade do Faustini era tanta que seus olhos se enchiam de lágrimas ao reger um ensaio em que o coral conseguisse interpretar as músicas como ele desejava. Ao reger Fugi Tristeza e Horror, no Domingo de Páscoa, seus olhos brilhavam de modo a dar a impressão de que ele havia acabado de ver o Jesus ressuscitado.

Num plano mais popular, as serenatas apaixadonas, realizadas à socapa perto da Casa das Moças, em que eu e o Evandro Luís da Silva sapecávamos lancinante duetos de Vaya com Diós, El Dia que me Quieras, Teus lindos olhos, etc. (Um dia tivemos que sair correndo porque o “Seu” Benedito acendeu a luz de sua casa e apareceu na porta com o que parecia ser uma espingarda... O Paulão Cosiuc, segundo consta, mergulhou de cabeça aquela noite nas águas então apenas barrentas do Jordão).

E os esportes? Futebol de campo e de salão, basquete, vôlei. Times valentes, aqueles. No futebol de campo e de salão, o Dorival Xavier era o astro – ninguém lhe chegava perto, era “hors concours”. No futebol de campo, entretanto, o Paulo Cosiuc conseguia fazer incríveis gols de bicicleta, que me deixavam admirado (quando não um pouco invejoso). No basquete e no vôlei o Ambrósio Jorge Neto, o Deocléssio Silveira Amaral e o Robert Nicholas Lodwick brilhavam. (O pai do Bob, Reverendo Robert E. Lodwick, fiquei sabendo pela última Newsletter, já havia brilhado nessa arena anos antes). Jogos violentos de futebol de campo contra o time da Vila (cidade de Jandira), disputas acirradas contra o Seminário de Campinas, no futebol de salão, lindas partidas de basquete e de vôlei contra a Escola Graduada (Graded School) de São Paulo. Tirando o basquete, que nunca joguei, fui figurante nos outros três esportes. Jogava de beque no futebol de salão, com meu caro amigo Hélio de Castro e Souza, hoje Delegado de Ensino em Taubaté.

Eu me estenderia muito se começasse a falar sobre os colegas de classe e os os outros. Presto homenagem apenas a três dos colegas de classe que já morreram: Ambrósio Jorge Neto, Jonas Christensen, e Maria Helena Pires.

Estender-me-ia ainda mais se falasse dos amores. Quem passou algum tempo pelo JMC e não ficou pelo menos uma vez apaixonado, “foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu”. O poema de Francisco Otaviano dos Reis falava do sofrimento, não do amor, mas no JMC amor e sofrimento eram sinônimos, porque era proibido namorar, embora a norma fosse aplicada com certa leniência. Era proibido, sim, andar de mãos dadas, abraçar-se, trocar beijos. Mas era tolerado esperar juntos na fila diante do refeitório, sentar-se juntos durante as refeições, trocar breves palavras no intervalo das aulas. As moças só vinham para o lado dos rapazes para as aulas, as refeições e os cultos. Fora disso, ficavam na distante Casa das Moças, do outro lado do Jordão. “O Jordão eu não passarei só” era um hino sobre o qual muita brincadeira se fazia. Mais de uma vez fiquei do lado de cá do vale olhando para uma figura que, com minha miopia (que me valeu o apelido de “Cegão”), só a fé me garantia ser quem eu queria no alpendre da Casa das Moças. Como bem sabem o Elizeu Cremm e a Marli (hoje também) Cremm, namoro à distância representava sofrimento, mas ajudava a aumentar a “botina”, porque o amor se alimenta talvez mais de olhares e sorrires do que dos finalmentes hoje tão comuns em fase precoce de namoro, ou mesmo sem... Meus amores lá tinham (ainda têm) nomes que terminam com um som de “i”: Reacy, Natalie, Sueli. A amizade, o carinho e a doce lembrança permanecem depois de, em alguns casos, mais de 35 anos.

Nos aspectos mais práticos da vida, era duro ter que arrumar o quarto, lavar a roupa, ajudar no refeitório de vez em quando, viver quase sempre sem dinheiro. A gente tinha que “se virar” para ganhar um magro dinheirinho. Enquanto no JMC preguei pela primeira vez, numa congregação em Itapevi, fui pela primeira vez trabalhar numa Igreja nas férias (em Pirapozinho, SP) – e isso rendia alguma remuneração. Em troca de alguns trocados, cantei, em quarteto ou octeto, em vários casamentos na Catedral Independente de São Paulo (“Sublime amor, além do entendimento”, “Senhor aqui viemos te adorar, trazendo humildemente o nosso amor”). No JMC, fui eleito pela primeira vez (Presidente do Grêmio Miguel Torres) – embora isso não rendesse nenhum dinheiro... Ali votei pela primeira vez (se não me engano, para Jânio Quadros, quando ele se recandidatou, sem sucesso, ao Governo do Estado, depois da renúncia à Presidência.) Quanta primeira vez compactada em tão pouco tempo. (A primeira vez em que todo mundo pensa quando se fala em primeira vez só veio a acontecer depois do JMC).

No JMC conquistei confiança em minha própria capacidade e isso foi fruto do contexto de estimulação e desafio intelectual, rigor acadêmico, e liberdade com responsabilidade em que vivíamos. Ali senti que poderia, com a base que tinha recebido, ser o que quisesse na vida. (O leque do que eu queria era, entretanto, limitado naquela época.)

Educação é isso: é o que resta, depois que a gente se esqueceu do que nos foi ensinado: o amor do saber, o entusiasmo pela descoberta, a fascinação pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, o desejo de sempre aprender mais, o sentido de valor que nos ensinou a separar o importante do urgente e a priorizar as coisas, a certeza de que a vida vale a pena quando se tem um objetivo pelo qual lutar. O JMC nos legou tudo isso. O JMC nos deu educação. Talvez a melhor educação que já tenha havido neste país.

[Escrito em Campinas, Setembro de 1997]


2. O JMC me Deu Amores

Mas nem tudo era educação no JMC. Ali também tive amores. Mas quem sabe os amores também tenham sido parte importante de minha educação: minha educação sentimental, talvez...

Meu primeiro grande amor foi ali e seu objeto foi Reacy Camargo, então e ainda hoje de Fartura, SP. Paixão fulminante, à primeira vista. Mas paixão também bastante sofrida. Reacy tinha 17 anos, como eu. Era linda, doce, suave. Seus lindos olhos verdes às vezes sorriam zombeteiramente. Era tímida: falava pouco, quase nada – mas como eram gostosos aqueles silêncios compartilhados, em que cada um procurava um assunto para conversar quando a duração muito longa do silêncio começava a incomodar.

A história era que ela deixara um namorado em Fartura – segundo constava, cara quase dez anos mais velho, bonitão, rico, filho de fazendeiro, e pronto pra casar. Isso, em si, já bastava para deixar um menino de 17 anos, sem dinheiro, com no mínimo oito anos de estudos pela frente, mais do que um pouco inseguro. Mas o ciúme que me agoniava não era só dele. Era também dos colegas veteranos, mais vividos e experientes, alguns bem mais velhos (digamos lá com seus 24 anos), que se sentiam em casa ali no JMC. Por que haveria ela, a caloura mais bonita, de preferir a mim, um outro calouro, que apenas chegava ali, inexperiente? As dúvidas me amarguravam e a insegurança aumentava.

No JMC era proibido namorar, mas a norma era aplicada com certa leniência. Era proibido andar de mãos dadas, abraçar-se, trocar beijos. Mas era tolerado esperar juntos na fila diante do refeitório, sentar-se juntos durante as refeições, trocar breves palavras no intervalo das aulas. As moças só vinham para o lado dos rapazes para as aulas, as refeições e os cultos. Fora disso, ficavam na distante Casa das Moças, do outro lado do riacho apelidado Rio Jordão. “O Jordão eu não passarei só” era um hino sobre o qual muita brincadeira se fazia. Mais de uma vez fiquei do lado de cá do vale olhando para uma figura que me parecia ser Reacy no alpendre da Casa das Moças. Já era bem míope na época, e por mais de uma vez devo ter ficado olhando a pessoa errada. Namoro à distância ajudava a aumentar a paixão, lá apelidada de “botina”. Pouco foi o aluno que conseguiu atravesar seus anos de JMC sem ter ficado “botinudo” pelo menos uma vez.

Só no final do ano Reacy e eu conseguimos escapar algumas vezes para ir até São Paulo, onde, na primeira escapada, no escurinho do Cine Payssandu, trocamos o primeiro beijo (e o segundo, o terceiro…) vendo (?) As Pupilas do Senhor Reitor na tela. Quase que o lanterninha nos pôs para fora. Afinal de contas, os tempos eram ainda pudicos. Acho que ele ficou com pena daqueles dois, quase crianças, ávidos para expressar um amor que durante quase um ano inteiro se manifestara mais em olhares do que em palavras, através de sorrires em vez de toques. Reacy não voltou para o segundo ano – ou voltou e rapidamente deixou a escola, não me lembro mais direito. Por quase dois anos não a vi. Mas ela veio à formatura em 1963, que era também a formatura de Renée, sua irmã, até hoje minha amiga e, de vez em quando, recadeira. Vimo-nos rapidamente, ensaiamos reatar o namoro, mas a mágica havia de certo modo passado.

Nunca mais vi Reacy, desde Novembro de 1963, mas tenho falado com ela, de vez em quando, especialmente nos nossos aniversários. Quando falamos, a emoção parece querer ressuscitar. Ela nunca veio às reuniões dos ex-alunos do JMC, nas quais sua irmã era presença constante. Alegava estar judiada. Queria que dela eu mantivesse aquela imagem do outono de 1961, quando nos apaixonamos. Talvez tenha sido sábia. A mágica, uma vez perdida, é difícil ressuscitar. Talvez mais valha a ilusão de uma memória carinhosamente guardada do que a dura realidade de um reencontro depois de 35 anos. O tempo, mais do que as dores do amor, deixa marca indeléveis, pois a um amor segue outro, mas o tempo caminha inexoravelmente para frente.

Reacy se casou, mora ainda em Fartura, e tem três filhos, o mais velho dos quais é advogado e se chama Eduardo. Já o encontrei algumas vezes nas reuniões dos ex-alunos do JMC, bem como, uma vez, a uma de suas irmãs.

Ao amor por Reacy seguiu-se, no meu terceiro ano no JMC, um amor mais suave, por Natalie Browne, nascida na China, filha de pais missionários, neta de um famoso missionário americano que se radicou no Brasil, Phillipe Landes. Aqui não houve realmente paixão. Foi um amor mais tranqüilo, pleno de momentos agradáveis em que eu procurava aprimorar meu inglês falando com ela, ou trocando bilhetes que ela pacientemente corrigia. Seus pais moravam em São Paulo, na Alameda Campinas, na Casa da Missão Brasil Central, e, assim, todos os fins de semana podíamos nos encontrar fora da normas rígidas para relacionamento entre namorados no JMC. Às vezes íamos namorar na parte de cima do túnel da Avenida Nove de Julho embaixo da Avenida Paulista. Lugar deserto, de onde hoje seria absolutamente temerário até mesmo passar perto.

Esse namoro durou até o final do ano, quando me apaixonei mais uma vez, desta vez por uma aluna externa, Sueli Barbosa Cavalcanti. Embora a visse sempre, minha atenção foi despertada, de uma maneira diferente, um dia em que vi uma foto dos alunos na quarta série do Ginásio na Praia Grande, onde haviam ido excursionar. Ela estava de maiô de corpo inteiro, listradinho, na foto, meio de perfil, e aquela foto não me saiu mais da cabeça. Durante uma viagem que fizemos a São João da Boa Vista, no meio do ano de 1963, trocamos olhares lânguidos, que já davam entender que estávamos apaixonados. Na viagem de formatura, feita para o Rio Grande do Sul, no final do ano, Sueli estava, e Natalie não, e as coisas seguiram seu curso natural. Namoramos durante bem mais de um ano, eu em Campinas, no Seminário, ela em Carapicuíba, onde moravam seus pais. A coisa começou a ficar séria, e os pais dela esperavam que nos casássemos – imagino que ela também. Deu-me frio na espinha e eu fiz algo de que me envergonho até hoje: sumi. Viemos a nos encontrar muito tempo depois, em 1994, creio, numa das reuniões da Associação dos Ex-Alunos do JMC. Ao longo desses anos todos, lembrava-me dela com freqüência e tinha vontade de encontrá-la. Somos amigos, hoje. Mas eu ainda me sinto constrangido, quando ao lado dela, por ter simplemenste desaparecido de cena para terminar meu namoro. Coisa de adolescente bobo, embora já tivesse mais de vinte anos. Algum dia ainda crio coragem de conversar sobre isso com ela. [Na crônica de 1963, sobre os Meus Vinte Anos, retomo esse assunto].

Duas paixões e um amor tranqüilo foram o saldo de minha experiência amorosa no JMC. Entre eles houve, especialmente em 1962, flertes e namoricos, como, por exemplo, com filhas de dois professores: Maria Helena Pires, filha do Rev. Aureliano Lino Pires, professor de Matemática, e Dorothéa Machado, filha do Rev. Joaquim Machado, professor de Português. Maria Helena já faleceu, vítima, se não me engano, de leucemia. Dorothéa trabalha com Organista e Regente Coral na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo. Encontrei-me algumas vezes com ela quando trabalhou, por pouco tempo, no Instituto de Artes da UNICAMP. Esses episódios foram relativamente superficiais, em comparação com os outros, e foi assim que atravessei meu segundo ano na escola.

[Escrito em Campinas, Dezembro de 1997]


Página atualizada pela última vez em: 09/09/2006